Manifestantes usam adesivo 'a culpa é das estrelas' em Brasília

Manifestantes usam adesivo 'a culpa é das estrelas' em Brasília

Em ato marcado pela diversidade de reivindicações, grupo faz paródia com nome de filme americano

Adriana Fernandes, André Borges, Eduardo Rodrigues e Murilo Rodrigues Alves, O Estado de S. Paulo

15 de março de 2015 | 14h48

Atualizado às 16h55

Brasília - Milhares de pessoas se aglomeraram em frente ao Congresso Nacional, na manhã deste domingo, 15, para protestar, principalmente, contra o governo de Dilma Rousseff e o PT. O ato pacífico, porém, tinha uma pauta ampla de reivindicações. O protesto começou por volta das 9h30 e terminou pouco depois das 13h. Durante todo o tempo, a presidente ficou no Palácio da Alvorada, onde se reúne com ministros na parte da tarde.

A Polícia Militar do Distrito Federal estimou em até 50 mil pessoas o público que se reuniu no gramado do Congresso. Os manifestantes saíram de frente do Museu Nacional, no início da Esplanada, e depois seguiram em direção ao Congresso. No final, os manifestantes jogaram três mil rosas brancas no espelho d'água em frente à Câmara e ao Senado para marcar o caráter "pacífico" do movimento. A reportagem do Estado não identificou camisetas e bandeiras de partidos políticos.

Dois mil policiais e 200 mil viaturas de apoio foram escalados. A PM bloqueou as vias que dão acesso à Praça dos Três Poderes, impedindo que os manifestantes chegassem até o Palácio do Planalto, onde a presidente despacha, e o Supremo Tribunal Federal (STF). "Não houve nenhum incidente grave, nada que pudesse descaracterizar essa manifestação pacífica e legítima", afirmou o sargente Daniel Quezado, da PM-DF.

Seis grupos foram os responsáveis pela organização dos protestos: Movimento Brasil Contra Corrupção (MBCC), Movimento Brasil Livre (MBL), Movimento Limpa Brasil, Vem pra Rua, Foro Brasília e Brasil Contra Corrupção. Para Jailton Almeida, do Vem pra Rua, a manifestação chegou a reunir 80 mil pessoas na frente do Congresso. 

Ele afirmou que o ato teve mais adesão do que os protestos de junho de 2013, antes da Copa das Confederações. Almeida, professor de Ética de uma das universidades particulares do DF, disse que a população de Brasília e de cidade-satélite saiu de casa para protestar contra a "gestão ineficiente" do governo do PT, que coleciona, segundo ele, "os maiores escândalos de corrupção da história do Brasil", em referência ao mensalão e às investigações da Operação Lava Jato. 

De acordo com ele, os custos com os seis caminhões de som e a estrutura do evento foram divididos entre os membros desses grupos, que fizeram "vaquinhas", com o apoio de "setores organizados da sociedade civil". O professor ressaltou que, diferentemente das manifestações de junho de 2013, o clima entre os manifestantes e os policiais foram de "reciprocidade". "As viaturas da PM passavam por nós e alguns aplaudiam", afirmou. 

Clima. Um adesivo na cor vermelha com a frase "A culpa é das estrelas" foi a sensação dos protestos na capital federal. Os manifestantes disputaram os adesivos que utilizava o nome do filme americano de 2014, que fez muito sucesso no Brasil entre o público jovem, para ironizar duplamente o PT, que governo o País desde 2003 e tem a estrela como seu símbolo principal, e a presidente Dilma Rousseff.

Ao longo do percurso, os adesivos foram sendo distribuídos e colados nas camisetas, em sua maioria, amarelas. Muitos dos presentes usavam as camisetas da seleção brasileira e bandeiras originalmente compradas para a Copa do Mundo. 

Foram recorrente menções à corrupção na Petrobras. Algumas apoiavam o juiz federal Sergio Moro, responsável pelos processo da operação Lava Jato, que investiga os desvios na estatal. Houve também quem levasse recados ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, relator do processo no STF, e Antonio Dias Toffoli, que na última semana se transferiu para a 2.ª turma, onde serão julgados os eventuais réus da Lava Jato. "Fora Toffoli. Eu sei o que você fez no mensalão passado", dizia uma das faixas. 

De acordo com a servidora pública Fabiane Freitas, a presidente "nunca tem conhecimento de nada, nunca sabe de nada". Segundo ela, Dilma sempre coloca a "culpa" na crise internacional para justificar medidas impopulares, como o tarifaço de energia, o aumento do preço do combustível e a inflação alta. O fato de o governo afirmar que desconhecia os casos de corrupção na Petrobras é outro alvo das críticas por trás da escolha do adesivo.

João Carlos de Souza, também funcionário público, não quis informar quem bancou a confecção dos adesivos. Segundo ele, o grupo contou com o apoio financeiro de "importantes empresários do DF". Ele também criticou os casos de corrupção na petroleira, o déficit nas contas do governo e os financiamentos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O advogado José Mendonça, de 52 anos, trouxe a mesma bandeira que usou nas manifestações pelo impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo, em 1992. "Eu era um dos cara-pitadas e hoje trago minha mulher e meus três filhos para pedir reforma política. Se a insatisfação contra o governo Dilma Rosuseff chegar ao pedido de impeachment, por que não? Ninguém aguenta mais ser governado pela presidente", afirmou.

O empresário Rivanaldo Gomes de Araújo comprou 120 camisas a R$ 12 e distribuiu aos funcionários dos oito postos de gasolina que possui para ajudar no movimento "Limpa Brasil". Já o garçom de um buffett em Brasília, Elismar Passos, aproveitou a manifestação para vender o que sobrou do estoque de bandeiras e camisetas que tinha comprado para revender na Copa do Mundo. As camisetas custava R$ 20 e a bandeira grande, R$ 50. "Não estou aqui para fazer protestos, mas para ganhar um dinheirinho", afirmou. Ele, porém, também criticou o preço da gasolina que subiu no segundo mandato. "Nem trabalhar de carro vou mais. Tenho que pegar o ônibus", disse. Ele trabalha mora no Riacho Fundo, cidade-satélite de Brasília, e trabalha na zona central. 

O cabo do exército Rodrigo Goes, de 24 anos, comprou uma camisa que estampava "Fora Dilma. Chega de corruptos". Mesmo sendo militar, ele não se intimidou em ir ao protesto à paisana e fazer críticas à "impunidade no País". Ele também criticou o aumento de preços. A adolescente Cristiane Nazaré, de 15 anos, estava acompanhada do pai e da irmã mais nova. Eles compraram ao longo da semana perucas que também eram estoque da Copa do Mundo. Ela disse que protestava por melhores serviços públicos na área de Saúde. "O Brasil tem tudo para crescer mas os políticos corruptos não deixam", afirmou.

Tudo o que sabemos sobre:
protestosDilma Rousseff

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.