Manifestantes fazem 'Dia da Vaia' contra Lula em capitais

Com roupas pretas e nariz de palhaço, 2 mil manifestantes criticam presidente e protestam contra escândalos

Fabrício Migues, do Estadão,

04 de agosto de 2007 | 15h40

Manifestantes, a maioria vestida de preto e usando nariz de palhaço, se reuniram no início da tarde deste sábado, 4, para uma passeata que partiu da esquina da Avenida Paulista com a Rua Pamplona, em São Paulo, com o objetivo de protestar contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Após o término, por volta das 18 horas, a Polícia Militar (PM) - que durante a passeata chegou a divulgar que estavam reunidas entre 10 e 12 mil pessoas - informou que um total de 2 mil aderiram ao protesto.  A manifestação, que ocorreu simultaneamente no Rio de Janeiro, em Brasília, em Belo Horizonte, em Porto Alegre e em Curitiba, foi organizada por meio de comunidades do site de relacionamentos Orkut.    Veja também: As vaias ao presidente  Veja imagens dos protestos em SP, Rio e DF  O ato, organizado por um grupo de aproximadamente 20 pessoas, começou por volta das 14 horas, quando todos cantaram, juntos, erguendo as mãos para cima, o Hino Nacional e o Hino da Independência. Depois da abertura, foi feito um minuto de silêncio para as vítimas dos acidentes aéreos com aviões da Gol e da TAM, ocorridos, respectivamente, em setembro do ano passado e em julho deste ano.   Entre os manifestantes, cartazes chamavam Lula de ladrão, pediam o impeachment do presidente e o fim da corrupção. Faixas também faziam menções aos episódios recentes em que o presidente foi vaiado em locais públicos, com frases como "relaxa e vaia" e "vaia de novo, com a força do povo". O advogado Ricardo Salles, de 32 anos, ligado ao movimento Endireita Brasil, que apóia a manifestação, disse que o que o motiva a participar do ato é a "indignação contra a "podridão na política". "O Lula está saindo muito pior que o Collor e qualquer outro. Os protestos são importantes porque mostram à classe política que a população está indignada e que o grau da corrupção está chegando ao limite", afirmou. O engenheiro Airton Teixeira, de 49 anos, disse que sua motivação em aderir ao protesto é a "incapacidade do presidente em governar o País, além a corrupção".  Representantes do setor aéreo também estavam presentes na manifestação. O diretor da Associação de Aeronautas e Aeroviários do Brasil (Aerovasp), Pedro Ricardo Carvalho, que foi comandante da Vasp e tem 55 anos, disse que decidiu participar do protesto por causa do "descalabro em que se encontra o Brasil". "A gente só ouve falar em propina e tudo cai em cima do PT", disse ele. O destino final dos manifestantes foi o Obelisco do Parque do Ibirapuera. Outra manifestação do mesmo tipo está sendo organizada para o dia 7 de setembro. Curitiba Cerca de 200 pessoas vestidas com camisetas pretas se reuniram na tarde deste sábado na Boca Maldita, em Curitiba, para protestarem contra o governo federal e pedirem o fim da corrupção política no âmbito federal. Aos gritos de "Fora Lula", o grupo era integrado por estudantes, profissionais liberais e incluía participantes do movimento que prega a separação do Sul do restante do país, o que provocou discussões entre os manifestantes.  Na opinião da comerciária Terezinha Moraes, o governo do presidente Lula está "indecente". "Não podemos nos conformar com essa situação, é uma pouca vergonha o que vemos acontecer com o Brasil. O Lula não tem condições de governar esse País", reclamou. Para o contador Paulo Hansen, o maior problema nacional é a falta de aplicação das leis. "Nós temos um sistema que não funciona, é um descalabro o que acontece com os nossos governantes. Existe muita corrupção e falta um sistema judiciário que fiscalize e puna, aplique a leis sobre os corruptos", disse.  Porto Alegre   Vestidos de preto, com nariz de palhaço e aos gritos de 'Fora Lula ladrão e sua quadrilha', 'Abaixo a impunidade' e 'Exigimos respeito e dignidade', cerca de 150 pessoas, segundo cálculos da polícia civil gaúcha, se reuniram no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, neste sábado à tarde, para o Dia da Grande Vaia Nacional. Uma das mais agitadas era a advogada Andréa de Borba Rosa, que ficou sabendo da manifestação por acaso: "A internet serve para isso também, ajudar as pessoas a bagunçar o coreto desse governo corrupto", disse.  Luiz Antônio Salcedo, pai do piloto Diogo Casagrande Salcedo, uma vítimas do acidente do Airbus da TAM, também estava lá com um cartaz e a foto do filho: "Diogão: Sempre nos nossos corações, seu nome guardaremos". Com muito esforço para conter as lágrimas, o advogado de 59 anos disse que irá participar de todos os atos contra o governo: "Tem que ser assim. Ninguém pode ficar impune depois de uma tragédia como essa. Vamos protestar sempre que acharmos as coisas erradas", disse. Rio Cerca de 100 pessoas participaram de uma caminhada na Praia de Copacabana, na tarde deste sábado, como parte do movimento intitulado "O Dia da Grande Vaia Nacional". Com roupas pretas e faixas e cartazes contra o governo Lula, os manifestantes percorreram quase toda a extensão do calçadão, promovendoum "vaiaço", em alusão à vaia ouvida pelo presidente na abertura dos Jogos pan-americanos. O grupo também gritava palavras de ordem responsabilizando Lula pelo caos aéreo. Apesar de o movimento ser declarado apartidário e ter sido divulgado pela internet, a maioria dos participantes era integrante de grupos de juventude do PSDB e do Democratas. A passeata teve pouca adesão dos pedestres e banhistas. Alguns tentaram defender Lula e foram hostilizados pelo grupo. Brasília Também com vaias e gritos "fora Lula", o protesto reuniu cerca de 100 pessoas em Brasília vestidas com as cores da bandeira nacional e de preto e uma pequena parte do grupo chegou a se dirigir ao Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente, para se manifestar contra o governo. O grupo iniciou o protesto no Aeroporto de Brasília homenageando também as vítimas do acidente com o Airbus da TAM. Eles pediram respeito e justiça com faixas de críticas ao presidente: "relaxe e fora", "Lula, não são só as elites que te vaiam. É o Brasil. Fora Lula", "Lula nervoso com a vaia do povo" e "Lula, o seu desgoverno é o pior apagão do Brasil". Em frente ao balcão de embarque da TAM, os manifestantes cantaram o hino nacional e deitaram no chão com faixas de protestos. Uma nova manifestação está sendo programada para o próximo dia 29 de setembro, no Congresso Nacional, um ano depois do acidente da Gol. "Depois da vaias no Pan, as pessoas perceberam que são muitas pessoas insatisfeitas com o presidente", disse o professor de biologia, Marcos Leandro Morris.  Segundo ele, a indignação aumentou com as falas recentes de Lula afirmando que não sabia da gravidade da crise área. "Quem está governando esse País?", criticou. A esteticista Chris Couto, da comunidade "Partido Vergonha na Cara" e uma das organizadoras do protesto, previu que o movimento vai crescer nas próximas semanas.  Belo Horizonte O ato reuniu cerca de 200 pessoas, segundo cálculo da Polícia Militar, que protestaram contra o governo federal com apitos, vaias, faixas e palavras de ordem. Quase todos vestiam preto. "A arrogância do governo federal é que despertou este movimento da sociedade", disse o publicitário Alexandre Maciel, de 29 anos, integrante da comunidade "Fora Lula" no Orkut e um dos organizadores da passeata em Belo Horizonte.  De acordo com ele, o protesto é assumidamente de classe média. "Nós, da classe média, somos os verdadeiros "negros" do país, os verdadeiros excluídos, não temos ONGs para nos amparar. Nós sustentamos um governo que faz assistencialismo com o Bolsa-Família", declarou Maciel. Eleitora de Lula em 2002, a bióloga e advogada Raíssa de Luca, de 27 anos, decidiu aderir ao movimento. "Estou muito decepcionada e insatisfeita com o governo", afirmou ela, que disse ter votado em branco na eleição presidencial de 2006. A socióloga Vânia Leal, de 60 anos, se declara antipetista. Ela encontrou no movimento uma forma de protestar contra Lula. "Ele é um presidente cego e surdo, mas não é mudo, infelizmente", ironizou Vânia. Alexandre Maciel disse que a passeata não teve apoio de partidos políticos ou entidades. Segundo ele, o custo das faixas foi dividido entre os participantes. O protesto teve outros alvos, como o Legislativo e o Judiciário. Por duas vezes, os manifestantes se deitaram na Praça da Liberdade para homenagear os mortos no acidente com o vôo 3054, da TAM. A Polícia Militar não registrou incidentes durante a manifestação. (Colaboraram Deise Vieira de Souza, da Agência Estado; Julio César Lima, Alexandre Rodrigues, Ricardo Bandeira, Adriana Fernandes  e Carlos Alberto Fruet, do Estadão)

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