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Manifestantes antirracismo e contra Bolsonaro convocam ato no Rio

Grupos que militam pela igualdade de direitos a negros e torcedores dos principais times do futebol carioca planejam protesto para domingo

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2020 | 22h49

Depois de ambos os grupos terem sido dispersados pela Polícia Militar do Rio no último fim de semana, a manifestação antirracista e o ato contra o presidente Jair Bolsonaro devem se juntar no próximo domingo. A imagem de convocação para as ruas, que conta com a assinatura de torcidas dos quatro grandes times do futebol carioca, começa pelo bordão "Vidas negras importam" e emenda com "Fora Bolsonaro, Guedes e Mourão genocidas". 

“O momento é de unificar pautas e ocupar as ruas contra o racismo e pela democracia”, explica o texto.

Antes da presença na orla de Copacabana no último domingo, houve uma articulação informal entre integrantes dos grupos progressistas e de torcidas organizadas tradicionais para organizar o ato — que se deu ao mesmo tempo em que bolsonaristas se reuniram na praia. Houve cuidado para não vincular a manifestação a nenhuma torcida organizada específica, já elas têm CNPJs e são passíveis de punições, como a proibição de frequentar estádios de futebol.

A principal faixa carregada por eles no último domingo tinha os dizeres "Democracia rubro-negra" e foi, portanto, confeccionada por torcedores do Flamengo. Mas também havia ali representantes de Botafogo, Fluminense e Vasco. Na convocação para o próximo fim de semana, há até a assinatura de um grupo do América, time que, apesar de tradicional, está há muitos anos distante da elite do futebol carioca. 

Antes do protagonismo da última semana, os grupos costumavam ter destaque numa atuação política mais voltada para causas específicas do futebol enquanto cultura. Reivindicam, por exemplo, o direito de torcer, que seria cerceado pela elitização dos estádios e pelo que consideram a criminalização das torcidas organizadas. Outras bandeiras importantes envolvem o fim da homofobia, do racismo e do machismo no futebol. 

"Entendemos que o apoio antifascista deve atuar pontualmente de forma a combater qualquer tipo de manifestação de caráter fascista ou que ponha em risco as liberdades individuais e fundamentais. Não aceitamos qualquer ameaça antidemocrática, manifestações de cunho preconceituoso”, diz a Flamengo Antifascista, em mensagem enviada ao Estadão. O grupo, que conta com integrantes de organizadas, sócios do clube e torcedores "avulsos", vê nas reações de Bolsonaro e Mourão aos antifascistas uma prova de que eles seriam fascistas. "É a única classificação de quem é contra tal movimento", afirma. 

A situação do País tem feito até com que torcedores que não faziam parte desses movimentos estejam criando grupos mais abrangentes, como é o caso do Democracia Botafoguense. Apesar de ter entre os entusiastas alguns componentes da Botafogo Antifascista, a nova frente de alvinegros busca agregar também democratas que não sejam somente de esquerda.

"Composto por diversos botafoguenses democratas, de diferentes pensamentos, lados políticos e regiões do país, o movimento tem como principal intuito realizar ações favoráveis ao campo democrático e contra quem o ameaça: hoje, principalmente, o presidente da República, Jair Bolsonaro", diz o manifesto. 

A atuação de todos esses movimentos tem como alicerce a ideia de que o futebol não funciona à margem da sociedade, e sim integrado a ela. Seria, portanto, inevitável misturá-lo com a política. Os grupos costumam usar como símbolos personagens ou episódios social e politicamente marcantes da história de seus respectivos clubes. 

Os torcedores do Vasco, por exemplo, se orgulham do pioneirismo do clube na abertura a jogadores negros. Os do Flamengo gostam de lembrar de como os termos “urubu” e “mulambo” surgiram como ofensivos e hoje são motivo de orgulho para a identidade rubro-negra. 

A relação entre o esporte e a ditadura militar também costuma ser lembrada. Quando o elenco do Flamengo embarcou para a final da Libertadores do ano passado, no aeroporto internacional do Galeão, uma faixa com os dizeres "Stuart Angel vive" estava pendurada em uma grade que cercava a área. Atleta de remo do clube e militante do MR-8, Stuart foi torturado e morto pela ditadura militar em 1971 — exatamente ali, na Base Aérea do Galeão, onde a multidão estava reunida.

Para as manifestações de domingo, há uma grande preocupação com eventuais infiltrados pelo bolsonarismo — que poderiam, segundo participantes dos atos, provocar confusão de propósito e, consequentemente, justificar a violência policial. A própria adesão da PM às ideias bolsonaristas já é uma preocupação em si, principalmente depois que um agente da polícia carioca disse ao deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), no último domingo, que tinha “mandado queimar” uma bandeira do protesto pela democracia.

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