Carl de Souza/AFP
Carl de Souza/AFP

Manifestação no Rio de Janeiro tem pautas diversas

Em Copacabana, público ocupou cerca de 800 metros da pista mais próxima da praia na avenida Atlântica

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2019 | 14h42

RIO DE JANEIRO - No Rio de Janeiro – onde o presidente Jair Bolsonaro (PSL) construiu sua carreira política – o público que compareceu ao ato deste domingo, 26, a favor do governo ocupou 800 metros da pista mais perto da praia da avenida Atlântica, em Copacabana (zona sul).

Embora as principais pautas fossem quase unânimes – a aprovação do pacote anticrime proposto pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro, a aprovação da reforma da Previdência e o apoio irrestrito ao presidente –, havia uma profusão de pautas divergentes – muitos pediam o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, outros exigiam intervenção militar imediata, o fim do exame nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e até a renovação da frota de ônibus municipais de Duque de Caxias (Baixada Fluminense). Nem a Polícia Militar nem participantes do ato divulgaram estimativa de público. A imensa maioria dos participantes usava camisas verde e amarelas, algumas personalizadas com frases de apoio a Bolsonaro ou a Moro. Embora políticos do PSL, como a deputada estadual Alana Passos, tenham comparecido e discursado, todos ressaltaram que estavam presentes como “cidadãos” e não como políticos.

A maior concentração de público ocorreu ao redor do caminhão de som do Movimento Brasil Conservador, cujos integrantes fizeram homenagens ao ideólogo Olavo de Carvalho e executaram o Hino Nacional pelo menos 11 vezes. “Viva Sérgio Moro, viva Damares. Esse é o primeiro governo em que o povo sabe o nome dos ministros”, discursou um dos líderes do grupo, emendando o coro “Ão, ão, ão, Olavo tem razão”.

A reportagem contou nove caminhões de som, a maioria concentrada ao longo de 400 metros ao redor do Posto 5. Devido à proximidade entre os veículos, alguns discursos divergentes eram feitos lado a lado. Enquanto um empresário de Itaguaí mandava “um recado ao pessoal de (Ciências) Humanas: a guerra fria acabou”, no carro de som vizinho um homem que se apresentou como militar paraquedista gritava que “(o presidente da Câmara dos Deputados) Rodrigo Maia (DEM-RJ) é comunista”.

Embora não tenham faltado cartazes e faixas pedindo o fechamento do Congresso Nacional, Maia foi individualmente o deputado mais criticado. Até um boneco gigante do parlamentar, anunciado como “o Judas do 17”, referência ao número do PSL, partido de Bolsonaro, foi inflado e exposto na orla, ao lado de um "pixuleco", como ficou conhecido o boneco do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva trajado como presidiário. “Maia é o traidor desse governo”, afirmou o administrador Ronaldo Magalhães, de 37 anos, autor da ideia de confeccionar o boneco do parlamentar. 

Em um carro de som levado à manifestação por empresários e políticos de Itaguaí, um banner anunciava que Maia “nem brasileiro é”. Ele nasceu no Chile, em 1970, porque seu pai, o ex-prefeito e atual vereador do Rio César Maia (DEM), estava exilado naquele país. O Brasil vivia a ditadura militar (1964-1985). Maia foi registrado na embaixada do Brasil em Santiago, o que lhe garante a condição de brasileiro nato. “Rodrigo Maia nos traiu, tem que sair imediatamente. Temos que colocar (na presidência da Câmara) alguém identificado com as pautas deste governo, não alguém que só quer atrapalhar”, afirmou o empresário Donizete Pereira, de 50 anos.

O clamor pelo fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal era intenso. Um carro de som exibia faixas pedindo “intervenção militar já”. “A ditadura é que era boa, não tinha pobreza, não tinha favela nem esse monte de pivetes na rua”, garantiu a dona-de-casa Margarida, de 70 anos, que se deixou filmar e fotografar, mas não quis contar o sobrenome. “Hoje em dia eu não confiaria nem no meu pai, se ele estivesse vivo”, explicou a mulher, que, junto com o marido, exibia cartazes exigindo o fechamento do Congresso e do Supremo. “Os militares tinham que ter sido mais rígidos. Eles deixaram essa turma de ladrões assumir o país”, reclamou. “Nos anos 1970 meu marido chegou a ir a protestos contra a ditadura, imagine. Ele era cego”, contou, enquanto ele – o aposentado João, de 72 anos - balançava a cabeça afirmativamente.

Outras pautas, longe de serem unânimes, levaram grupos menores ao protesto. “Eu estou aqui por mim, é um protesto individual”, anunciava o bacharel em Direito Márcio Ávila, de 38 anos, que carregava uma faixa exigindo o fim do exame nacional da OAB. “A Ordem não tem legitimidade, quem avalia a capacidade dos estudantes é o Ministério da Educação”, reclamou. “No Brasil existem três milhões de pessoas na mesma situação que eu, que poderiam vir à rua comigo”. Enquanto era entrevistado pela reportagem Ávila foi abordado por um homem que reclamou: “Essa não é uma pauta do protesto, não estamos aqui pra defender isso”. Ávila retrucou que “estamos numa democracia, cada um exige o que acha justo” e o homem foi embora. “Tem muito advogado reclamando (de cobrar o fim do exame da OAB), mas muita gente também passa aqui pra me parabenizar”, garantiu.

Já o militar Marcelo Forte, de 51 anos, foi ao protesto para cobrar melhorias em Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense. “A frota de ônibus precisa ser substituída, não tem elevador pra cadeirante nem ar condicionado. E a saúde está abandonada”, reclamou.

Por volta das 13h30, o público começava a se dispersar entoando o coro "sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor". "Essa é que é manifestação de verdade", orgulhava-se a estudante de Direito Márcia Oliveira, de 19 anos, enquanto seguia rumo ao metrô. "Não aquela bagunça do dia 15", completou, referindo-se ao ato de apoio à educação pública realizado, no Rio, na avenida Presidente Vargas, em 15 de maio.

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