Arthur Souza/Photopress/Estadão Conteúdo
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No Recife, manifestação contra Bolsonaro termina com tumulto e disparos de balas de borracha

Ação da PM ocorreu no final do ato político, que ocorreu de maneira pacífica neste sábado, 29; governador Paulo Câmara (PSB) diz que já determinou a abertura de investigação

Pedro Jordão, Especial para o Estadão

29 de maio de 2021 | 15h55
Atualizado 29 de maio de 2021 | 17h24

RECIFE - No Recife, a manifestação pacífica contrária ao governo do presidente Jair Bolsonaro com centenas de pessoas terminou com forte repressão da Polícia Militar de Pernambuco (PMPE), que disparou com balas de borracha e usou spray de pimenta e bombas de efeito moral em manifestantes. Há registros de feridos, mas ainda não foram contabilizados. A ação da PM foi realizada já no final do ato político, entre a avenida Conde da Boa Vista, no bairro da Boa Vista, e a ponte Duarte Coelho, no centro da cidade, por volta do meio-dia. O governador Paulo Câmara (PSB) ordenou a abertura de investigação sobre o ocorrido.

Os manifestantes afirmam que a PM atacou de forma inesperada e sem nenhum motivo aparente. “A gente não estava fazendo nada. Não estava acontecendo nada. A gente só estava atravessando a ponte, em fila, batendo palma, algo muito tranquilo, e eles (a PM) responderam dessa forma, do nada”, relatou a professora Eva Marinho. Ela participava do ato desde o início, às 10 horas da manhã, e não ficou ferida. A PM chegou a usar spray de pimenta contra a vereadora do PT Liana Cirne, também de forma inesperada, e dentro de uma viatura, enquanto ela conversava com agentes.

Na saída da concentração do ato, a polícia, que acompanhou todo o protesto, impediu a saída de carros de som, que eram utilizados pelas lideranças da manifestação para fazer falas políticas e recomendações de segurança da pandemia, como manter a distância de pelo menos um metro entre as pessoas durante o ato. Desde a última segunda-feira, 24, Pernambuco está sob um novo decreto estadual com medidas de restrição para atividades sociais e econômicas. Especialmente neste final de semana e no seguinte está permitido apenas o funcionamento de serviços essenciais, mas as pessoas não estão proibidas de circular na cidade.

Na última sexta-feira, 28, a 34ª Promotora de Justiça de Defesa da Cidadania da Capital (PJDCC), Helena Capela, com atribuição na Promoção e Defesa da Saúde do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), emitiu um documento recomendando a “não realização de eventos que possam ocasionar aglomeração neste final de semana (...) a exemplo do ato agendado para a data de 29 de maio na Praça do Derby”. A recomendação utilizou o decreto assinado pelo governador Paulo Câmara como base. O documento reforça que “o Código Penal brasileiro, nos artigos 267 e 268, tipifica como crime casos em que cidadãos ou organizações apoiem a disseminação de uma epidemia ou mesmo a infração à determinação do poder público que venha impedir a disseminação de doença contagiosa”.

Investigação

Paulo Câmara se manifestou na tarde deste sábado, por meio de vídeo publicado em rede social e disse que determinou abertura a apuração de responsabilidade dos episódios de violência. "A Corregedoria da Secretaria de Defesa Social já instaurou procedimento para investigar os fatos", afirmou o governador, que disse ainda que o comandante da operação e envolvidos na agressão à vereadora ficarão afastados enquanto durar a investigação.

A vice-governadora do Estado, Luciana Santos (PCdoB), havia afirmado mais cedo que a ação da PM não foi autorizada pelo governo. "Nós estamos ao lado da democracia. Os atos de violência, que repudiamos desde já, estão sendo  apurados e terão consequências", diz a publicação, que termina com a hashtag #ForaBolsonaro.

Prefeito do Recife, João Campos (PSB) também afirmou, por meio de rede social, que "não pode haver espaço para cenas como as que assistimos hoje" e defendeu investigação sobre o caso.

De acordo com a equipe de comunicação da vereadora Liana Cirne, ela não estava participando do ato, mas foi até lá para prestar assessoria jurídica após receber denúncias de violência policial. Ela tentava explicar a agentes da PM que a manifestação era pacífica, que estava se encerrando e que, por tanto, não seria necessário o uso da força, quando foi atacada de dentro de uma viatura. Liana recebeu os primeiros atendimentos médicos e passa bem, mas vai ter que fazer um tratamento nos olhos pelos próximos dias em função da gravidade dos ferimentos. Ela vai prestar uma queixa sobre o caso.

A assessoria de imprensa da PM informou que está apurando os fatos, em relação à vereadora e ao uso da força contra os manifestantes sem motivo aparente.

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