JEFFERSON RUDY / AGÊNCIA SENADO
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Mandetta na CPI: entre o médico e o político; leia análise

Em depoimento, ex-ministro da Saúde explicitou divergências com o governo que aceitou integrar, mas não expressou arrependimento do apoio explícito que deu à eleição de Jair Bolsonaro

Mário Scheffer, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2021 | 18h47

Usando uma máscara branca, Luiz Henrique Mandetta, o primeiro depoente na CPI da Covid, declarou sua reverência ao SUS e às orientações científicas para a preservação de vidas. O ex-ministro considera que teve acertos em busca de uma “união” perante um “vírus pesado.” A saída do cargo, lembrou, foi o preço por tentar impor sua condição de médico e por honrar Hipócrates.

Ele não disse a qual parte do famoso juramento se referia, mas sua resistência à cloroquina, que ajudou a empurrá-lo para fora do cargo, talvez se encaixe no seguinte trecho: “a ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda.”

Entre a medicina e a política, Mandetta ficou com as duas. O político que construiu sua carreira por dentro de corporações médicas, com uma trajetória tipicamente conservadora e humanista, adquiriu estatura nacional.

De político próximo dos planos de saúde privados e integrante da cruzada contra o Programa Mais Médicos, converteu-se em defensor do SUS – e, mais recentemente, em articulador da chamada frente ampla democrática, que vislumbra candidatura de centro para a Presidência da República.

O político-médico exagerou um tanto: “tive a melhor equipe do Ministério da Saúde”, “entreguei respiradores, pelo menor preço do mundo”, “encomendei testes.”

O médico-político explicitou divergências com o governo que aceitou integrar, mas não expressou arrependimento do apoio explícito que deu à eleição de Jair Bolsonaro.

A pandemia tem promovido transmutações. No caso de Mandetta, o médico-político paroquial, expoente da apagada bancada da saúde, deu lugar ao politico-médico que se apresenta como peça-chave para derrotar o atual presidente.

Entre a rinha eleitoral e a saúde pública, que a CPI fique com a segunda. Da promoção de medicamentos ineficazes, passando pela falta de vacinas às milhares de mortes que podiam ter sido evitadas, o Senado deve respostas urgentes à sociedade. Além de gerar a responsabilização de agentes públicos e a reparação dos danos coletivos, que a CPI aponte caminhos claros para enfrentamento da pandemia desgovernada.

* PROFESSOR DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP

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