Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Mandetta muda discurso e critica quarentena; Mourão defende isolamento

Após pedir flexibilização de ações contra o coronavírus, presidente Bolsonaro alinha narrativa com ministro da Saúde, equipe econômica e militares; vice, porém, faz defesa da quarentena

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2020 | 18h12
Atualizado 02 de abril de 2020 | 14h33

BRASÍLIA – Depois de oito dias de panelaços e de enfrentar duras críticas nas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro tenta impor uma narrativa para sair das cordas na gestão da crise provocada pelo avanço do coronavírus no País. Menos de 24 horas após ter feito um pronunciamento à Nação, em cadeia nacional de TV e rádio, criticando o fechamento de escolas e do comércio para combater a doença, Bolsonaro conseguiu enquadrar o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. O presidente alinhou o discurso com Mandetta, com a equipe econômica e com militares. A única voz dissonante que veio a público foi a do vice-presidente Hamilton Mourão.

Convencido de que haverá desemprego em massa se o isolamento social for mantido e com receio de que o fim de seu governo seja antecipado, Bolsonaro fez uma aposta de alto risco para recuperar capital político e começou a investir no discurso pós-crise. Em conversa com o ministro da Saúde, ele afirmou que não poderia criar mais pânico na sociedade e dar munição para seus adversários, como o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Sob pressão, Mandetta admitiu erros, suavizou o tom e negou a intenção de deixar a equipe.

“Temos que melhorar esse negócio de quarentena, não ficou bom. Foi precipitado, foi desarrumado”, disse o ministro nesta quarta-feira, 25, durante a divulgação do número de 57 mortos e 2.433 casos confirmados da covid-19 no País. “A última quarentena foi em 1917. É normal, faz parte dessa situação, nós errarmos, calibrarmos e fazermos projeções um pouco fora e questionáveis por A, B ou C. A quarentena é um remédio extremamente amargo e duro.”

Mandetta, que muitos achavam que até poderia deixar o cargo por causa da pressão de Bolsonaro pelo retorno das pessoas às ruas, procurou dizer durante entrevista que sua preocupação é com a saúde e a vida das pessoas e que as quarentenas impostas pelos Estados têm prejudicado, inclusive, o trabalho médico. 

Segundo o ministro, uma “quarentena sem prazo para terminar vira uma parede na frente da vida das pessoas” e as decisões têm que envolver outros assuntos do governo e da própria área de saúde. “A saúde não é uma ilha, não vamos tratar isoladamente, não existe só coronavírus. Eu tenho recebido médico que está fechando consultório de pediatria, clínicas de ultrassonografia. A vida continua. Outras doenças acontecem, as pessoas têm necessidades. As coisas continuam. Os arquitetos têm de trabalhar, as pessoas...”

A estratégia do Planalto vai na contramão do esforço mundial para o combate à propagação da doença e não conseguiu conter os panelaços, que se repetiram na noite de ontem em capitais do País. Na avaliação de governadores ouvidos pelo Estado, Bolsonaro parece apenas querer tirar dividendos políticos da pandemia e se livrar da responsabilidade de uma possível onda de caos social provocada pela quarentena.

Antes aliado do presidente, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), reagiu com jeito de rompimento político. Médico, Caiado afirmou que não pode admitir que um presidente “lave as mãos” e passe adiante a responsabilidade por um colapso econômico. “Por que responsabilizar os outros, dar uma de Pôncio Pilatos, lavar as mãos?”, perguntou. “Um estadista tem que ter coragem de assumir as dificuldades. Se existem falhas na economia, assuma sua parcela.” Caiado se mantinha em silêncio desde o dia 15, quando foi vaiado por militantes bolsonaristas ao alertar sobre o risco de contágio nas manifestações de rua pró-governo.

A cúpula das Forças Armadas, por sua vez, mantém o discurso sincronizado de que Bolsonaro erra na forma de falar, mas acerta ao prever uma crise econômica acentuada pelo “remédio” antes receitado de forma exagerada pelo “Dr. Mandetta”. 

O vice Hamilton Mourão, porém, continua defendendo o isolamento social. “A posição do nosso governo, por enquanto, é uma só: isolamento e distanciamento social. Isso está sendo discutido e ontem (terça-feira, 24) o presidente buscou colocar. Pode ser que ele tenha se expressado de uma forma, digamos assim, que não foi a melhor”, afirmou. 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, argumenta que o bloqueio do comércio desconsidera o impacto humanitário e social de uma recessão econômica profunda, que afeta principalmente os segmentos mais vulneráveis da população. Guedes tem sido um contraponto às medidas de fechamento do comércio e isolamento domiciliar, adotadas por governadores.

“O presidente teve de tomar uma decisão política para flexibilizar a quarentena, porque o Brasil não é Estados Unidos. Só o tempo vai dizer se ele está certo ou errado”, disse o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), que é evangélico e amigo de Bolsonaro. “Estamos naquela fase do ‘se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.’’’ Há, na prática, uma pressão da base eleitoral do presidente para a reabertura dos templos e igrejas.

Reunido com governadores, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse que é preciso pôr um ponto final nesse embate. “Temos que sair desse enfrentamento, sobre sair ou não do isolamento. Isso nada mais é do que a pressão de milhares de pessoas que aplicaram seus recursos na Bolsa, acreditaram no sonho da prosperidade da Bolsa a 150 mil pontos. A Bolsa caiu, como caiu no mundo inteiro, porque essa não é uma crise do Brasil: é uma crise mundial, que atinge o Brasil”, afirmou ele. “Mas a gente não pode deixar de cuidar das pessoas porque pessoas estão perdendo dinheiro na Bolsa.”

Com as medidas anunciadas, Bolsonaro tenta se proteger das previsões econômicas que já eram pífias antes mesmo do primeiro caso da doença em São Paulo, no início do mês. A estratégia do Planalto para sobreviver à pandemia é detalhista. Em nenhum momento, o presidente recorreu a suas prerrogativas para decretar volta às aulas na rede federal de ensino, por exemplo, ou outras ações de retorno à “normalidade”. Evitou, assim, carimbar o próprio discurso.

De madrugada, logo após o pronunciamento em cadeia de TV do presidente e de mais um panelaço, a confiança em Bolsonaro despencou nas redes sociais. Pesquisa da AP Exata no Twitter mostrou que o sentimento predominante em relação ao presidente passou da confiança, mantida ao longo do dia, para a raiva, o desgosto e a tristeza. De 15 horas de anteontem até o fechamento desta edição, a hashtag #forabolsonaro foi a mais utilizada nos posts que mencionavam o presidente no Twitter, seguida da #bolsonarogenocida e, em terceiro, #bolsonarotemrazao.

A máquina de propaganda do bolsonarismo foi logo acionada. O senador Flávio Bolsonaro (RJ), primogênito do presidente, escreveu no Twitter que, se o isolamento total das pessoas for mantido, haverá 40 milhões de desempregados. “Certamente muito mais pessoas morreriam”, disse ele. “Parabéns Pre @jairbolsonaro pela coragem de agir agora e pensar no pós-crise”, afirmou. /TÂNIA MONTEIRO, ADRIANA FERNANDES, FELIPE FRAZÃO E PATRIK CAMPOREZ

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.