Dida Sampaio/Estadão
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Entrevista de Mandetta evidencia clima de tensão

Braga Netto diz que ‘não existe essa ideia de demissão’ do colega ‘no momento’; “Em política, quando a pessoa fala ‘não existe’, o professor já fala: ‘existe’”, ironiza o ministro da Saúde

André Borges, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2020 | 18h12
Atualizado 31 de março de 2020 | 17h50

BRASÍLIA – A tensão entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, aumentou de intensidade. O distanciamento provocado pela posição contrária ao isolamento social de Bolsonaro, que no fim de semana novamente desrespeitou a quarentena defendida pelo Mistério da Saúde para combater o coronavírus e visitou o comércio de Brasília, ficou evidente na entrevista coletiva realizada nesta segunda-feira, 30, no Palácio do Planalto.

De forma constrangida, a cúpula do governo evitou comentar o ato isolado de Bolsonaro. Questionado sobre a atitude do presidente, Mandetta ensaiou responder, mas a assessoria do Planalto se apressou em informar que a reunião tinha acabado. Os demais ministros que participaram do encontro deixaram o Salão Oeste em silêncio. A entrevista foi encerrada repentinamente, sem que as oito perguntas previstas fossem feitas.

Antes de sair, o chefe da Casa Civil, general Walter Braga Netto, também cochichou no ouvido de Mandetta. O ministro, que ainda permaneceria uma hora falando sobre o avanço do coronavírus no País, avisou, porém, que só comentaria questões técnicas. “Vamos dar um passo à frente”, disse.

Mandetta é interrompido por Braga Netto ao ser questionado de demissão

Mandetta foi perguntado sobre a possibilidade de sua demissão, por causa das diferenças entre aquilo que defende e o que Bolsonaro faz. Mas, quando foi responder, foi interrompido por Braga Netto. “Não existe essa ideia de demissão do ministro Mandetta. Isso aí está fora de cogitação no momento, está certo?”, disse o general. Mandetta aproveitou a deixa para fazer uma observação irônica. “Em política, quando a pessoa fala ‘não existe’, o professor já fala: ‘existe’.”

A entrevista coletiva desta segunda-feira foi a primeira sobre o assunto realizada no Planalto, e não no Ministério da Saúde, como vinha ocorrendo diariamente. O Estado apurou que a decisão é mais uma resposta às inquietações de Bolsonaro, que tem se incomodado com o protagonismo de seu ministro da Saúde.

Em nenhum momento Mandetta negou os atritos, mas quis tratar do tema como algo comum e coletivo, e não apenas restrito às divergências com Bolsonaro. “O importante é no sentido de todos de tentar ajudar. O que a gente vem procurando é uma unicidade”, disse o ministro. “Todos nós estamos tentando fazer o melhor pelo povo brasileiro, e o presidente, também. As tensões são normais, pelo tamanho dessa crise. Seria muito pequeno, de minha parte achar, que isso (atrito) é um grande problema”. 

Mandetta disse ainda que o combate à pandemia deve ser o foco do trabalho de todos, pois o novo coronavírus é “mais dramático que as duas guerras mundiais” e já “derrubou o sistema mundial de saúde”.

Como revelou a colunista do Estado Eliane Cantanhêde, Mandetta chegou a fazer um alerta ao presidente e a ministros, em reunião no sábado. “Estamos preparados para o pior cenário, com caminhões do Exército transportando corpos pelas ruas?”, perguntou. Em outro momento, o titular da Saúde afirmou que, se o presidente insistisse em ir às ruas, seria obrigado a criticá-lo. Bolsonaro rebateu que, nesse caso, iria demiti-lo.

Na prática, o ponto central do acirramento das tensões está na orientação reforçada por Mandetta, que pediu à população para seguir recomendações dos Estados na condução das medidas de combate ao coronavírus, ou seja, o isolamento social. Enquanto o ministro defendia os Estados, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), dizia: “Não sigam as orientações do presidente da República do Brasil.”

O posicionamento a favor dos Estados contraria o discurso de Bolsonaro, que não tem poupado duras críticas aos governadores por causa das quarentenas e da paralisação do comércio. “Tenho dialogado com os secretários municipais e estaduais dentro do que é técnico, científico e dentro do planejamento. O que (conversamos) é o que a gente precisa ter na saúde, nesta e nas outras semanas, para que a gente possa imaginar qualquer tipo de movimentação”, disse Mandetta. “Por enquanto, mantenham a recomendação dos Estados, porque essa é, no momento, a medida mais recomendável, já que nós temos muitas fragilidades no sistema de saúde”. / COOLABORARAM DANIEL WETERMAN, JUSSARA SOARES e EDUARDO RODRIGUES

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