Maluf repete 12 vezes: ´Esta carta não é minha´

No conforto de sua cidadela, o escritório político da Avenida Europa, e prestigiado pela infantaria do PP ? vereadores e deputados convocados para aplaudi-lo ? Paulo Maluf declarou ontem em alto e bom som: "Esta carta não foi escrita por mim, esta carta não foi assinada por mim."A carta que incomoda o ex-prefeito é um documento manuscrito, de 13 linhas e 3 parágrafos, por meio da qual ? segundo o Ministério Público e a Polícia Federal ? ele solicitou à gerência do UBS de Zurique, em dezembro de 1996, transferência de US$ 100 milhões para o UBS de Londres, em contas a serem abertas em nome de seus quatro filhos.O documento faz parte de um acervo de 200 quilos de papéis bancários que a Suíça enviou para as autoridades brasileiras que investigam contas milionárias em paraísos fiscais, das quais Maluf seria o principal beneficiário.Na sala de reuniões, onde lhe fazem companhia 22 quadros que exibem com medalhas, condecorações e láureas que recebeu quando governador (1979-1982) e quando prefeito (1993-1996), Maluf repetiu 12 vezes a frase, sempre categoricamente: "Esta carta que eles dizem ter sido escrita por mim não é minha, esta assinatura não é minha."Ele anunciou a contratação do professor Celso Del Picchia ? especialista em exame de documentos e grafias ? para fazer uma perícia na carta, confrontando os escritos em inglês com anotações de próprio punho de Maluf. Em seu currículo, Del Picchia conta 14 mil laudos. É dele o parecer que desmontou o Dossiê Cayman, um punhado de papéis forjados em 1998 atribuindo ao então presidente Fernando Henrique e outras autoridades tucanas titularidade de contas secretas.Maluf disse que a carta é um documento forjado, tal qual a filha que um dia lhe atribuíram fora do casamento e o caso da compra de frangos, do qual foi absolvido em ação civil de improbidade. "Vou tirar o DNA dessa carta, esta letra não é minha", enfatizou, arrancando um "muito bem" de Wadi Mutran, ex-vereador pelo PP que integrou a comitiva do partido destacada para apoia-lo. Além de Mutran, faziam parte da claque Erasmo Dias, Conte Lopes, Wadi Helu, Salim Curiati (pai e filho) e outros malufistas.Para o ex-prefeito, a distribuição do documento é "mera armação político-eleitoral". Ele afirmou que sua defesa "jamais teve acesso a qualquer documento". O Ministério Público informou que na terça-feira, quando compareceu à Promotoria de Justiça da Cidadania para depor sobre as contas, a carta foi exibida a ele, inclusive com a tradução oficial. Maluf não se manifestou.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.