Maluf não esclarece nada em depoimento à CPI

O depoimento de mais de sete horas do ex-prefeito Paulo Maluf (PPB), encerrado pouco depois das 21 horas desta segunda-feira na Câmara Municipal de São Paulo, não esclareceu nenhuma das questões levantadas contra a administração dele pela CPI da Dívida Pública, na opinião dos vereadores que o inquiriram. A presidente da CPI, vereadora Anna Martins (PCdoB), anunciou antes do final do depoimento de Maluf, que ele voltaria a ser "convidado ou convocado" a depor.Maluf abusou de piadas durante seu depoimento e ironizou vereadores. Afirmou que as contas telefônicas de sua antercessora Luiza Erundina (PSB) estavam recheadas de ligações para "Cuba, Rússia, Nicarágua e até o Nepal". Ao vereador Elizeu Gabriel (PDT) perguntou: "O sr. sabe quantos carros passam por dia no Eurotunel?", quando este comparava o custo do túnel construído sob o mar e que une França e Inglaterra ao custo do túnel Ayrton Senna, construído em São Paulo durante a gestão Maluf. "Não sei", respondei o vereador. "Nem eu", retrucou Maluf. "Já que se trata de um túnel ferroviário". ?Mentiu e escamoteou informações?"Ele escamoteou informações e não trouxe documentos sobre a principal questão que pesa sobre a sua administração. O exagero de gastos na execução de grandes obras. A vereadora citou trechos do depoimento de Maluf sobre a construção do túnel Ayrton Senna e afirmou: "Ele disse que foram gastos R$ 350 milhões na obra, mas as contas do município apontam um gasto de R$ 750 milhões", disse ela.O relator da CPI, Milton Leite (PMDB), afirmou que Maluf chegou a mentir em muitos trechos de seu depoimento. "Maluf disse que não sabia das operações de seu secretário de Finanças, Celso Pitta, com as Letras Financeiras do Tesouro Municipal (LFTM). No entanto, conseguimos demonstrar que ele estava ciente de todas as operações", acusou Leite.Maluf, que esteve inteiramente à vontade durante todo seu depoimento, disse no final que agradecia a convocação dos vereadores. "Enfim, tive a oportunidade de mostrar a lisura e a honestidade do governo Paulo Maluf", concluiu Maluf. "Corrente da felicidade" O ex-prefeito negou ter qualquer conhecimento das chamadas "cadeias da felicidade", como são chamadas as operações, supostamente lesivas ao erário, feitas com as Letras Financeiras do Tesouro Municipal (LFTM) durante a sua gestão e autorizadas diretamente por seu então secretário de finanças, Celso Pitta (PPB)."Não posso saber de tudo o que ocorreu em todas as minhas secretarias", disse Maluf. "Mas sou favorável que se investigue caso haja o menor indicio de irregularidade." A presidente da CPI, vereadora Anna Martins (PCdoB), citou uma operação ocorrida em 1995. A prefeitura teria vendido R$ 70 milhões em letras para o Banco Vetor, que no final do dia repassaria o mesmo lote por R$ 72 milhões ao Banco Bradesco. "Em um só dia a prefeitura perdeu R$ 2 milhões", afirmou a vereadora.João Antônio (PT) lembrou operação semelhante da "corrente da alegria" ocorrida também em 1995, na qual a prefeitura vendeu R$ 50 milhões em letras no início do dia para recomprar o mesmo lote no final da tarde por R$ 53 milhões. Maluf afirmou que nunca teve conhecimento dessas operações e reportou-se a relatórios do Banco Central, do Ministério da Fazenda e do Senado Federal para afirmar que "todas as investigações feitas por esses órgãos com as letras emitidas durante o meu governo, não constataram irregularidade".?Maluf é hilário?A deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP) considerou a afirmação do ex-prefeito Paulo Maluf (PPB) - de que ela teria sido, quando prefeita, a responsável pela maior parte da dívida da cidade de Sào Paulo - "hilária"."Não quero comentar algo tão irônico quanto isso, vamos deixar para a CPI apurar toda a verdade", afirmou. "Só posso dizer que eu deixei a dívida de São Paulo, quando saí, dez vezes menor do que quando ele (Maluf) deixou a prefeitura". Precatórios O ex-prefeito insistiu, repetidamente, em seu depoimento, em que a CPI da Dívida Municipal "bate na tecla de matéria já exaustivamente julgada" quando o acusa de ter desviado para obras recursos obtidos com a emissão de Letras Financeiras do Tesouro Municipal (LFTM).Maluf garante que todos os recursos vindos das emissões de LFTM foram utilizados no pagamento de precatórios. "O restante dos recursos foi mantido em posição negociada no Fundo de Liquidez do Município, administrado pelo Banco do Brasil e pelo Banespa", afirmou ele.Ele se negou a comentar trechos do relatório final da CPI dos Precatórios, feita pelo Senado Federal, que apontam desvios de recursos. Maluf apresentou pareceres do Banco Central, do Ministério da Fazenda e do próprio Senado, emitidos depois das conclusões da CPI, que afirmam a legalidade das operações com as letras em seu governo.Os vereadores da CPI da Dívida afirmam que R$ 607 milhões de recursos obtidos com as letras foram utilizados para outros fins. Maluf garante que não, e afirma que uma prospeção contábil no Fundo de Liquidez revelaria que a sua informação é correta. Empréstimo de US$ 122 milhõesMaluf defendeu, durante seu depoimento, o empréstimo de US$ 122 milhões (em valores atualizados, segundo a CPI) que sua administração contraiu junto ao Instituto de Previdência Municipal (Iprem), em 1996.Este empréstimo, de acordo com o relator da CPI Milton Leite (PMDB), engordou em R$ 466 milhões a dívida do Município. "Se hoje a prefeitura realmente deve R$ 466 milhões ao Iprem, está é a prova de que realizei um ato de relevância aos servidores públicos paulistas ao contrair o empréstimo?, defendeu-se ele. Maluf argumentou que o Iprem tinha dinheiro disponível para aplicar no mercado e que a prefeitura decidiu tomá-lo, "porque nada melhor que este dinheiro ficasse no município". "A prefeitura é uma entidade mais segura do que qualquer entidade privada. Nunca vai falir", disse ele. Para Maluf, o fato do empréstimo constituir hoje uma dívida de R$ 466 milhões da prefeitura "é a prova de que realizei um bom negócio com o dinheiro do funcionalismo".O ex-prefeito garantiu que durante sua gestão, os serviços do empréstimo com o Iprem foram pagos regularmente. "Mas não posso responder pelas administrações que me sucederam".Maluf ataca PT ao depor em CPI da Dívida

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