Malan diz que matéria de Veja é "salada venenosa"

O Ministério da Fazenda acaba de divulgar conteúdo de uma carta que o ministro da Fazenda, Pedro Malan, encaminhou hoje à revista Veja sobre a reportagem "A História Secreta de um Golpe Bilionário", que apresenta a versão de que o banque iro Salvatore Cacciola chantageava o economista Francisco Lopes quando este presidia o Banco Central. O ministro Malan afirma, na carta, que a reportagem é uma "salada venenosa de histórias amplamente divulgadas há dois anos, com interpretações, ilações e requentadas insinuações". Malan diz que essa "salada" foi feita para criar um fato novo. "A supostavinculação do governo e de meu nome a uma dita operação-abafa para encobrir imaginárias negociatas que teriam sido feitas a partir do Banco Central", afirma o ministro. Ele acusa a reportagem, também, de ser "espantosamente primária" para uma revista da qualidade da Veja. Malan afirma na carta, ainda, que a reportagem da Veja "não tem estofo", porque em nenhum momento apresentou as provas que confirmariam a venda de informaçaões privilegiadas do Banco Central. "Mais ainda: não há qualquer evidência de que pessoa do governo Fernando Henrique Cardoso tivesse algum conhecimento de uma suposta venda de informaçaões a protagonistas do mercado". A carta de malan foi endereçada ao diretor de Redação daVeja, jornalista Tales Alvarenga.Leia, abaixo, a íntegra da carta:"Senhor Diretor, A reportagem de capa de Veja "A história secreta de um golpe bilionário" é, no que se refere ao Governo e à minha pessoa, uma salada venenosa de histórias amplamente divulgadas dois anos atrás com interpretações, ilações e requentadas insinuações. Fez-se a salada para tentar criar um fato novo: a suposta vinculação do governo e de meu nome a uma dita "operação abafa" para encobrir imaginárias negociatas que teriam sido feitas a partir do Banco Central.É espantosamente primária para uma revista da qualidade de Veja a linha de raciocínio usada no trecho da reportagem com o título "Como o escândalo foi abafado": atribui a uma suposta conversa reservada com senadores uma frase minha de dois anos atrás, agora publicada em manchete de página totalmente fora do contexto em que antes foi proferida. Ao se ler a reportagem, tem-se a impressão de que a frase foi dita recentemente e significa fato novo a denunciar ou a investigar.É uma pena que neste ponto a reportagem crie para Veja um surpreendente incômodo: se a revista considera cínicas as avaliações de que o maior recurso das publicações é a falta de memória de seus leitores, defeito de que não se acusa Veja, os leitores não haverão de ser condescendentes se flagram um dos repórteres da revista exatamente com inacreditável crise de memória, como neste caso.(Um parênteses para ajudar a entender a frase e a amnésia do repórter: não converso em off, nem com senadores nem com jornalistas, e todos os que me conhecem sabem disso, e espero que entendam e respeitem este procedimento não como desconfiança, mas como postura pessoal e estilo de trabalho).Para avivar a memória da revista: em 19 de março de 1999, concedi em Madrid longa entrevista ao jornalista Clóvis Rossi, da Folha de S. Paulo, sobre as dificuldades enfrentadas pelo país desde a mudança do regime cambial e perspectivas para o ano de 1999. Durante essa entrevista, o jornalista lembrou que eu havia encaminhado uma carta ao presidente Fernando Henrique, propondo que designasse substitutos para o Ministro da Fazenda e para o presidente do Banco Central na época. Perguntou, então, Rossi, em tom de brincadeira, não rigorosamente reproduzido na publicação: "Por que o sr. pediu demissão? Sente-se também responsável pelo fato de o regime cambial ter se tornado insustentável e ter sido mudado de uma maneira que muita gente chama de infeliz?". Respondi, também em tom de brincadeira: "Não gostaria de entrar em detalhes da história, que ficam para meu livro de memórias que será publicado algum dia, dez anos depois de minha morte".A brincadeira pode não ter sido muito feliz, pois permitiu uma maldosa ilação de que eu teria um conjunto de coisas ilícitas a esconder o que absolutamente não é verdade.No dia 24 de março de 1999, em audiência pública com a presença da imprensa na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal, o senador Eduardo Suplicy indagou sobre as razões da substituição de Francisco Lopes no Banco Central e referiu-se a essa entrevista e à citada frase, admitindo que talvez tivesse sido proferida em tom jocoso.Respondi assim:"V. Exa. tem razão: foi dito em tom de blague mesmo. Um jornalista fez uma pergunta em tom de brincadeira, e eu respondi um pouco em tom de brincadeira. Agora, falando a sério, duas coisas: em primeiro lugar, o professor Francisco Lopes é um dos grandes economistas deste país. Meu amigo de longa data, fui eu que o trouxe para o Governo. Tentei trazê-lo desde 1993, quando estava no Banco Central. De novo, em janeiro de 1994, quando estávamos ainda discutindo a URV. Fui chave para trazê-lo para o Governo, a fim de ocupar uma Diretoria, na verdade duas Diretorias. Ele acumulou, no Banco Central, a Diretoria de Pesquisa Econômica e a de Política Monetária, com exemplar brilhantismo. Foi um extraordinário Diretor de Política Monetária e Pesquisa Econômica do Banco Central durante os quatro anos do primeiro mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Tenho profundo respeito profissional e apreço pessoal pelo professor Francisco Lopes. Não pretendo entrar em detalhes sobre as razões este é um direito que tenho que levaram à decisão. Foi uma decisão de Governo. Posso dizer coisas que já disse, embora entre um pouco em uma área privada. Devo dizer que são coisas que eu gostaria que ficassem restritas ao meu relacionamento com o Presidente da República".Isto aconteceu há dois anos, e jamais alguém voltou a tratar dessa frase. Agora, Veja a ressuscita como se tivesse sido proferida recentemente em uma reunião talvez secreta com alguns senadores, numa tentativa de reabrir um caso que esteve aberto esse tempo todo, seguindo os trâmites normais do Legislativo, do Judiciário, da Polícia Federal e do Ministério Público.Sobre este assunto prestei como testemunha não apenas um, mas dois longos depoimentos à Justiça, que também ouviu dezenas de pessoas. A CPI dos Bancos, no Congresso, também investigou profundamente o caso. Concedi entrevistas a inúmeros veículos de comunicação, mantendo consistentemente a mesma história e a mesma paz com a minha consciência.O Ministério Público persegue este assunto nos mínimos detalhes há quase dois anos. Tomou dezenas de depoimentos. Há duas ações em curso na Justiça, na qual deposito mais uma vez a minha confiança de que haverá de julgar com isenção e serenidade, atendo-se aos autos do processo, sem se deixar levar por sensacionalismos, meras ilações ou suspeitas não comprovadas.A Polícia Federal investigou o caso por quase um ano e meio. Esperei durante 500 dias a conclusão do relatório da Polícia Federal, que nada provou contra mim, para cobrar de um grande jornal paulista, a Folha de S. Paulo, a retificação de uma acusação leviana que me fez em manchete de primeira página ("Malan sabia da ajuda ao Marka, diz PF"), baseada em provas e documentos supostamente em mãos da Polícia Federal, por mim desde o início desmentidos categoricamente.O jornal reconheceu seu erro em texto de sua Ombudsman, Renata Lo Prete, publicado em 24 de outubro de 2000, com o título "A Nossa Manchete Errada", no qual reproduz a posição do Diretor de Redação, Otavio Frias Filho: "O jornal errou ao confiar em fontes cujas informações não se comprovaram". Concluía a nota da Ombudsman da Folha: "Quase toda manchete envolve alguma dose de aposta. Às vezes, uma dose elevada. É impossível estabelecer regra única. Fatores que mudam de um caso para outro ajudam a decidir se convém ou não bancar o risco. Uma coisa é certa. Se não há elemento consistente para contrapor a um desmentido, é melhor reconhecer o erro sem rodeios. Pior do que perder a aposta é perder a confiança do público se agarrando a uma reportagem sem estofo".A reportagem de Veja não tem estofo. Em nenhum momento apresentou as provas que confirmariam a venda de informações privilegiadas do Banco Central. Mais ainda: não há qualquer evidência de que pessoa do Governo Fernando Henrique Cardoso tivesse algum conhecimento de uma suposta venda de informações a protagonistas do mercado. Este Governo nunca foi e jamais será conivente com procedimentos deste tipo.Não tenho procuração para falar em defesa de Francisco Lopes, por quem mantenho admiração e respeito, e muito menos sobre qualquer dos outros personagens citados pela revista, que desconheço totalmente. Mas posso garantir que a saída do professor Francisco Lopes não teve qualquer relação com o caso Marka ou com as alegadas e não provadas evidências que constituem a base da reportagem de Veja uma revista que há décadas admiro e que espero venha a ter a coragem e o respeito ao leitor de reconhecer que se equivocou na forma e na substância."

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