Ari Vicentini/Estadão
Ari Vicentini/Estadão

Maklouf, um repórter fiel à mais nobre missão do jornalismo

Era obsessivo ao buscar as histórias, apurava com rigor os fatos e perfeccionista no texto; assim alcançou o patamar de grande nome do jornalismo

Guilherme Evelin, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2020 | 17h19

Luiz Maklouf Carvalho foi um dos grandes nomes do jornalismo brasileiro. Alcançou esse patamar porque reunia as principais qualidades dos melhores repórteres: era obsessivo ao buscar as histórias, apurava com rigor os fatos e era perfeccionista no texto. Escrevia ao mesmo tempo com objetividade, sem firulas, mas com estilo. Já era um jornalista consagrado, com passagens bem-sucedidas em vários veículos, como o Estadão, quando eu o conheci na redação da revista Época, onde trabalhamos juntos.

Fora para a Época depois de alguns anos na piauí, onde publicou algumas das principais reportagens de sua carreira, dignas de aparecer numa antologia de obras clássicas do jornalismo brasileiro.

Maklouf não era de ficar jogando conversa fora. Na redação da Época, costumava  chegar cedo e sentar-se no canto onde estava instalado seu computador. De lá, ao longo do dia, disparava telefonemas e fazia pesquisas pela internet. O jeitão aparentemente ranzinza escondia um sujeito bem-humorado, que gostava de tiradas sarcásticas. 

Sempre acessível para dar dicas, era reverenciado e adorado pelos colegas mais jovens. Editei algumas de suas reportagens. Lembro-me de um perfil de Andrés Sanchez, o presidente do Corinthians, então no auge do seu poder como dirigente esportivo e figura que orbitava o lulismo. Resultado de uma apuração exaustiva e meticulosa, o perfil retratava todos os maneirismos, inclusive linguísticos, de Sanchéz, revelava bastidores da política em um grande clube de futebol e ainda desnudava a alma do personagem, atordoadamente solitário.

Ao longo do tempo, desenvolvemos uma relação amistosa. Em 2019, nos reencontramos no Estadão. Por causa do câncer que voltara a lhe maltratar, Maklouf pouco aparecia na redação do jornal. Nossos contatos eram esporádicos, sempre por email ou por telefone para falar de reportagens que queria fazer ou de textos que iria entregar. Continuou a trabalhar, enquanto pode. O conjunto de perfis que fez ao longo de 2019 lhe valeu um prêmio interno do Estadão.

Na última vez em que nos encontramos, visivelmente castigado pelo tratamento a que era submetido, comentou comigo que não tinha mais apetite para fazer certas reportagens, como a que revelou a existência de Lurian como filha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, furo que lhe trouxera glórias, mas igualmente alguns dissabores. 

Comentei que lera “O Capitão e o Cadete”, seu livro sobre a trajetória de Jair Bolsonaro nos quartéis, e como ele era importante para entender a figura do atual presidente da República. Na hora, percebi que seus olhos brilharam. Como os de um “foca” no início de carreira ao descobrir uma novidade. Mesmo alquebrado, Maklouf continuou a ser repórter até o fim da vida, fiel à missão mais nobre do jornalismo. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.