Major culpa coronel por massacre do Carajás

O major José Maria de Oliveira procurou, nesta terça-feira, responsabilizar o coronel Mário Colares Pantoja ? condenado na semana passada a 228 anos de prisão ? pelo confronto no qual policiais militares mataram 19 sem-terra em Eldorado do Carajás, em abril de 1996.Terceiro oficial da PM a sentar no banco dos réus por causa do episódio, Oliveira disse que, ao deixar o local do confronto para procurar um delegado, havia na estrada seis corpos de sem-terra. Na volta, porém, encontrou uma caminhonete cheia de cadáveres.Oliveira comandava um batalhão florestal que saíra de Parauabepas e afirmou que seus homens não dispararam nenhum tiro, contrariando parte dos depoimentos de testemunhas apresentadas pelo promotor Marco Aurélio Lima do Nascimento. Laudos mostrados pela acusação também confirmam que pelo menos uma pessoa foi alvejada com tiros disparados por um soldado comandado pelo major. ?Quando cheguei, vi meia dúzia de corpos espalhados e, enquanto conversava com o coronel Pantoja, ouvi disparos, mas não posso dizer se foi ou não da minha tropa?, afirmou o major. Pantoja, segundo Oliveira, ordenou-lhe que se deslocasse da ?curva do S?, na rodovia PA-150, local do confronto, para Curionópolis, onde encontraria um delegado.O major disse ter contestado as ordens, mas foi advertido: ?Disse ao coronel para não sair do local antes que eu retornasse, mas quando voltei ele já tinha ido embora.? Foi então que ele notou os corpos amontoados na caminhonete. Oliveira não afirmou, porém, se acreditava terem ocorrido mortes durante a sua ausência.Os advogados de defesa usaram depoimentos de soldados para confirmar que Oliveira não teve participação no confronto. Em julgamento realizado em 1999 e posteriormente anulado, o secretário de Segurança Pública do Pará, Paulo Sette Câmara, já confirmara ter dado ordens para a desobstrução da estrada onde estavam os sem-terra, o que colaborou para a absolvição de Oliveira, Pantoja e do capitão Raimundo Almendra Limeira.Um novo depoimento de Sette Câmara começou no final da tarde desta terça-feira, na própria secretaria, para onde foi transferido o júri. Além dos interrogatórios de dois peritos e do uso de laudos, a acusação recorreu aos depoimentos da repórter Marisa Romão e do cinegrafista Raimundo Osvaldo Araújo, únicos jornalistas no local no momento do confronto, para provar que a tropa comandada por Oliveira entrou no conflito.Mas o depoimento mais importante apresentado pela promotoria foi do motorista Valderez Tavares da Silva, que afirmou ter ouvido de soldados do batalhão de Parauapebas um comentário de que os sem-terra iriam morrer, algumas horas antes do confronto. Silva, inclusive, relatou que um sargento das tropas de Oliveira, identificado por Leopoldo, teria executado uma pessoa no local, com dois tiros.O julgamento, que deverá acabar somente na noite desta quarta, está sendo tranqüilo. Até mesmo o forte policiamento do Batalhão de Choque da PM foi reduzido a poucos soldados do patrulhamento rotineiro. Como ocorreu no primeiro júri, o Movimento dos Sem-Terra (MST) não enviou nenhum representante ao fórum de Belém, preferindo divulgar uma nota de protesto contra a realização do julgamento.Nesta terça-feira, os advogados da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos entraram com recurso no Tribunal de Justiça do Estado pedindo que o coronel Mário Pantoja seja mantido na prisão enquanto aguarda a análise de apelação para a anulação da sentença.

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