André Dusek/Estadão
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Maia diz que acabou a ‘interlocução’ com Guedes e vai passar a negociar com Ramos

Presidente da Câmara, que recebeu reforma administrativa do governo, diz que ministro da Economia proibiu equipe de conversar com ele

Camila Turtelli, Eliane Cantanhêde, Jussara Soares e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2020 | 19h37
Atualizado 03 de setembro de 2020 | 21h57

BRASÍLIA – O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), decidiu romper relações com o ministro da Economia, Paulo Guedes. Maia anunciou que, a partir de agora, passará a tratar com o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, sobre votações importantes, como a reforma administrativa, porque Guedes proibiu o diálogo dele com os secretários da área econômica.

Maia deu a declaração logo após ter recebido a proposta de reforma administrativa do governo das mãos do ministro da Secretaria-Geral, Jorge Oliveira, que representou o presidente Jair Bolsonaro – em viagem pelo interior de São Paulo. Ali mesmo, o presidente da Câmara tornou público o novo confronto com Guedes e contou que o ministro proibiu integrantes da equipe econômica de dialogar diretamente com ele. 

“Eu não tenho conversado com o ministro Paulo Guedes. Ele tem proibido a equipe econômica de conversar comigo. Ontem (quarta-feira), a gente tinha um almoço com o Esteves (Colnago, chefe da Assessoria Especial de Relações Institucionais) e com o secretário do Tesouro (Bruno Funchal) para tratar do Plano Mansueto, e os secretários foram proibidos de ir à reunião”, disse Maia em entrevista à GloboNews. 

O almoço, que seria na casa do presidente da Câmara, acabou cancelado. “Foi encerrada a interlocução”, disse ele. Sem esconder a briga, Maia afirmou que suas tratativas, agora, serão com Ramos, mesmo em assuntos econômicos. “Ramos tem sido um aliado da Câmara dos Deputados, fundamental nas últimas votações, como a Lei do Gás. (...) Então, decidi que a relação da presidência da Câmara será com o ministro Ramos, e o ministro Ramos conversa com a equipe econômica, para não criar constrangimento mais para ninguém. Mas isso não vai atrapalhar os nossos trabalhos, de forma nenhuma”, afirmou.

A cerimônia de entrega da reforma administrativa havia sido planejada pelo governo para marcar um momento bom do relacionamento entre o Palácio do Planalto e o Congresso. Lá estavam também os líderes do governo e Maia fez questão de agradecer Bolsonaro e alguns ministros, mas em nenhum momento citou Guedes. “Parabenizo pela correta decisão de encaminhar reforma que vai no ponto correto”, afirmou ele. Logo depois, porém, tornou pública a queda de braço com Guedes.

Procurado, o Ministério da Economia informou que não comentará o assunto. Nos bastidores, o clima é tenso com comentários de que Maia “apunhala pelas costas”. Em conversas reservadas, alguns auxiliares de Guedes fizeram questão de lembrar, no entanto, que o tempo do presidente da Câmara “está acabando”. Outros, no entanto, tentaram colocar panos quentes no desentendimento, sob o argumento de que, com a mudança na liderança do governo na Câmara, agora nas mãos de Ricardo Barros (Progressistas-PR), a ponte com o Planalto se fortaleceu.

A relação entre Maia e Guedes ficou estremecida durante a reforma da Previdência, mas se deteriorou ainda mais com a pandemia do coronavírus. Em abril, os dois deixaram de se falar. O presidente da Câmara mantinha, então, contado com Esteves Colnago, com o secretário especial de Previdência Bruno Bianco, e com o então secretário do Tesouro, Mansueto Almeida. O Estadão apurou que Guedes, àquela época, já havia determinado à sua equipe que se mantivesse afastada de Maia.

O chefe da Economia nunca gostou da proximidade do presidente da Câmara com Mansueto. Maia, por sua vez, acha que Guedes quer afrontá-lo, fazendo afagos ao deputado Arthur Lira (AL), líder do Progressistas e comandante do Centrão que está de olho em sua cadeira na Câmara.

Para o Planalto, fala de Maia é sinal de fragilidade de Guedes

A declaração de Maia foi entendida no Planalto como mais um sinal de que Guedes se fragiliza ainda mais no cargo. As reclamações sobre o ministro têm se intensificado internamente sob a alegação de que a equipe econômica tenta impor uma agenda sem considerar os cálculos políticos e mesmo sem pareceres jurídicos. 

A reforma administrativa entregue nesta quinta, 3, à Câmara é considerada um exemplo. No ano passado, a equipe econômica deu o texto como finalizado antes mesmo da avaliação da Casa Civil e da Subchefia de Assuntos Jurídicos. Ao passar pelos dois órgãos, a proposta foi barrada porque apresentava pontos que contrariavam a determinação de Bolsonaro de poupar os atuais servidores.

A cada desentendimento, Guedes ameaça ir embora. Depois de 1 ano e oito meses de governo, a percepção no Planalto é a de que a paciência com esse tipo de atitude está chegando ao fim.

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