NAJARA ARAUJO/AGÊNCIA CÂMARA
NAJARA ARAUJO/AGÊNCIA CÂMARA

Maia diz que Bolsonaro ‘joga pesado’ para eleger Lira e anuncia bloco com seis partidos

Presidente da Câmara diz que tem apoio de 157 deputados para definir o candidato à sua sucessão

Anne Warth, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2020 | 17h40
Atualizado 09 de dezembro de 2020 | 21h24

BRASÍLIA – O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou nesta quarta-feira, 9, que o governo Jair Bolsonaro vai “jogar pesado” para eleger o deputado Arthur Lira (Progressistas-AL) como seu sucessor e está disposto até mesmo a “rasgar o próprio discurso” econômico. A menos de dois meses do término de seu mandato à frente da Casa, Maia expôs todas as divergências com Bolsonaro e disse que o Palácio do Planalto trabalha para derrotá-lo na eleição, marcada para fevereiro de 2021.

“O governo está desesperado para tomar conta da presidência da Câmara, para desorganizar de uma vez por todas a agenda do meio ambiente, para flexibilizar a venda e entrega de armas neste País, entre outras agendas que desrespeitam a sociedade brasileira e as minorias”, afirmou o deputado. “A gente sabe que o governo vai rasgar o seu próprio discurso para derrotar o presidente da Câmara e jogar pesado para eleger o seu candidato”.

Lira lançou nesta quarta-feira sua candidatura. Horas depois, Maia anunciou um bloco com seis partidos (DEM, MDB, PSDB, Cidadania, PSL e PV) e 157 deputados para definir o candidato à sua sucessão, além de cargos na Mesa Diretora. O grupo ainda pode ser engordado com outras siglas, principalmente de oposição.  São cotados para a cadeira de Maia os deputados Elmar Nascimento (DEM-BA), Aguinaldo Ribeiro (Progressistas-PB) e Baleia Rossi (MDB-SP). O vice-presidente da Câmara, Marcos Pereira, (Republicanos-SP) decidiu deixar o grupo por achar que não teria apoio ali e agora quer entrar no páreo como “terceira via”. Ribeiro, por sua vez, é do mesmo partido de Lira e sua eventual candidatura abrirá uma crise.

Maia fez questão de carimbar Lira como “candidato do Bolsonaro”. A ideia é impedir que a oposição avalize a campanha do rival. As estocadas do presidente da Câmara, em entrevista coletiva, foram dadas pouco antes de Lira anunciar oficialmente sua candidatura. Desde domingo, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) barrou a possibilidade de recondução de Maia ao comando da Câmara e de Davi Alcolumbre (DEM-AP) à presidência do Senado, as negociações entre os partidos se intensificaram e o Planalto entrou no jogo com mais “tinta na caneta”.

Além de mudanças na equipe, como a iniciada com a demissão de Marcelo Álvaro Antônio no Ministério do Turismo, a liberação de parte das emendas parlamentares está condicionada ao apoio a Lira. Ocupado interinamente, o cargo no Turismo deverá ir para o Centrão.

Sem esconder a contrariedade com o governo, Maia lembrou, porém, que “a toda ação corresponde uma reação”. Disse que, dependendo de como a articulação política do Planalto “operar”, a oposição pode passar dos atuais 130 deputados para 230. “Para que o presidente quer interferir no processo? Precisa de um presidente da Câmara patrocinado por ele para que possa avançar em outras pautas”, observou o deputado, citando a agenda de costumes. “Eu discordo e não pautei”.

Em mais de uma ocasião, Maia criticou o que chamou de falta de compromisso do governo com a vacinação contra o coronavírus e expôs as divergências com a equipe conduzida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. “Não tem agenda para vacina, não tem agenda para os mais pobres, não tem agenda para a recuperação econômica, para a geração de empregos”, atacou o presidente da Câmara. “Tem muita promessa. Você consegue fazer um livro com três volumes das promessas que a equipe econômica fez e não botou de pé nenhuma, até hoje”.

A demora para aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) destinada a regulamentar “gatilhos”, que devem ser acionados caso haja ameaça ao limite de despesas do Orçamento, também mereceu tom irônico de Maia. “Estou pensando, para dar um alerta ao governo, em trazer um bolo amanhã para comemorar um ano da promessa de votar a PEC Emergencial no Senado”, disse.

Logo depois, o deputado avisou que não vai pautar a prorrogação da PEC do Orçamento de guerra nem do decreto de calamidade pública. As duas medidas, que valem apenas para este ano, liberaram o Executivo do cumprimento de metas, em razão da pandemia. “O governo que trabalhe para organizar seu Orçamento dentro das regras fiscais”, afirmou.

Ao se declarar “perplexo” com a decisão do governo de isentar os impostos de importação sobre a compra de armas e pistolas, Maia também disse que a sociedade está em “pânico” com o aumento de casos e de mortes decorrentes da covid-19. “No momento em que falamos em vacinas, o governo isenta a compra de armas”, observou ele.

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