Maia ajudou a montar estratégia para rifar Daniel Silveira

Interlocutor de Alexandre de Moraes, ex-presidente da Câmara conversou até com aliados de Lira para evitar ‘descontrole’

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2021 | 18h45

Caro leitor,

Prestes a deixar o DEM, o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (RJ) ajudou a alinhavar a saída política que pode evitar, nesta sexta-feira, 19, o agravamento da crise com o Supremo Tribunal Federal após a prisão do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), determinada na terça-feira, 16, pelo ministro Alexandre de Moraes. Nos bastidores, Maia passou a conversar naquela mesma noite com líderes e presidentes de partidos e disse que, se a Câmara não agisse agora com rigor para conter o extremismo, a situação ficaria “descontrolada”, podendo ter reflexos até mesmo na disputa de 2022. 

Interlocutor de Moraes, o ex-presidente da Câmara avisou aos pares que livrar Silveira da prisão representaria um suicídio para a Câmara porque a decisão do magistrado seria confirmada no dia seguinte pela Corte. Previu até mesmo o placar: 11 a zero. Maia argumentou que a Câmara precisava dar uma resposta dura para impedir a continuidade de uma guerra promovida por “lunáticos” bolsonaristas contra o Congresso e o Supremo, com riscos imprevisíveis para 2022, quando o presidente Jair Bolsonaro pretende concorrer a um segundo mandato. 

Mesmo derrotado na eleição para o comando da Câmara, com o revés sofrido por seu candidato Baleia Rossi (MDB-SP), Maia continua a ter influência na Casa. No dia 17, por exemplo, recebeu uma ligação do presidente do Progressistas, senador Ciro Nogueira (PI), avalista da vitoriosa candidatura de Arthur Lira (AL). Até então, o Progressistas articulava uma estratégia, juntamente com outros partidos do Centrão, com o objetivo de angariar votos para salvar o aliado de Bolsonaro. 

Maia não falou com Lira, mas, a partir do diálogo com Ciro, intensificou as conversas com dirigentes de partidos, a fim de construir um campo de apoio à decisão de Alexandre de Moraes, circunscrevendo o escândalo ao próprio Silveira, classificado como “extremista” e “maluco” até por colegas. No vídeo em que ameaçou os ministros do STF, o deputado não poupou ofensas aos magistrados, falou em venda de sentenças e sugeriu até “surra” com um “gato morto” no ministro Edson Fachin. “Na minha opinião, vocês já deveriam ter sido destituídos do posto de vocês e uma nova nomeação convocada e feita de 11 novos ministros. Vocês nunca mereceram estar aí”, afirmou Silveira na gravação.

A ideia da cúpula da Câmara, agora, é mostrar que o deputado tem de sofrer sozinho as consequências de seus atos, mesmo que seja com a perda de mandato, respondendo à quebra de decoro no Conselho de Ética. “É um ponto absolutamente fora da curva”, afirmou Lira, resumindo a nova estratégia. A frase foi repetida nesta sexta-feira, 19, na abertura da sessão da Câmara para decidir o destino de Silveira. 

Além disso, como revelou o Estadão, a equipe econômica se mobilizou para impedir que o imbróglio político prejudique votações importantes em um momento de crescentes dificuldades causadas pela pandemia do novo coronavírus. Estão nessa lista a reedição do auxílio emergencial e medidas de ajuste nas contas públicas. 

“Não podemos permitir que grupos bolsonaristas continuem perpetuando a ideia de fechamento de instituições como o Congresso Nacional e o Supremo”, escreveu Maia no Twitter. “Tolerância com intolerantes nos leva no sentido contrário e a história já mostrou isso”. 

Amigo de Bolsonaro, Silveira já responde a dois inquéritos no Supremo, ambos conduzidos por Moraes. Um deles apura a disseminação de fake news e o outro, o financiamento dos atos antidemocráticos que, no ano passado, pediram o fechamento do Congresso e do Supremo. 

Nas redes sociais, porém, o deputado tem recebido apoio de militantes radicais bolsonaristas, que também criticam os militares do governo. As hasthags #DanielSilveiraLivre e #STFVergonhaNacional estão entre os principais assuntos do Twitter nesta sexta-feira, 19, ao lado de um bombardeio na direção de Lira, que parece ter herdado os ataques dirigidos a Maia nos últimos anos. 

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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