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Máfia investiu US$ 17 milhões em bingo no País

Mafiosos italianos investiram US$ 17 milhões (cerca de R$ 49,1 milhões) na importação, montagem e aluguel de caça-níqueis instalados em bingos brasileiros para lavar dinheiro do narcotráfico internacional. A acusação, feita em relatórios enviados pela Direção Distrital Antimáfia da Procuradoria da República do Tribunal de Roma em 1998, foi reavivada em 2004, em novo inquérito sobre lavagem de dinheiro aberto na 5.ª Vara Federal Criminal depois que eclodiu o caso Waldomiro Diniz. Para o Ministério Público, é preciso reinvestigar a denúncia, pois há fatos novos; para alguns acusados no Brasil, tudo acabou em 2003, quando a Justiça, por falta de provas, os inocentou. "Outrossim, quanto ao crime de lavagem de dinheiro, ante a farta documentação proveniente da Carta Rogatória (com os relatórios) e os depoimentos colhidos (...) vislumbram-se indícios de sua prática", afirmam as procuradoras Andréa Araújo e Andréa Bayão, em pedido que apresentaram em 13 de fevereiro, para realização e busca e apreensão em vários endereços, entre eles o apartamento do empresário Alejandro de Viveiros Ortiz, em São Paulo. "Querem ressuscitar um assunto já julgado e liquidado", diz o advogado Daniel Bialski, que defende Ortiz, seu pai Alejandro Ortiz Fernandez e seu irmão Johnny de Viveiros Ortiz, e argumenta que já foram inocentados pela Polícia Federal e pela Justiça. O combustível para a "ressurreição" do caso foi dado em fevereiro passado, pelos depoimentos de Messias Antônio Ribeiro Neto e Carlos Roberto Martins, que lidavam com jogos eletrônicos em Goiás. Os dois disseram ao Ministério Público que o bicheiro Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira, um dos protagonistas do caso Waldomiro, teve sociedade e fez acordos com Alejandro Ortiz nos jogos eletrônicos no Brasil. Cachoeira nega operar negócios ilegais e alega que Ortiz tentou instalar máquinas em Goiás, onde o empresário tinha legalmente o direito a administrá-las, mas não houve interesse. Ele aparece em uma fita de vídeo discutindo o pagamento de propina e contribuições eleitorais ilegais, em 2002, com Waldomiro, então presidente da Loterj, órgão fluminense que cuida dos jogos. Cachoeira diz que estava sendo achacado pelo funcionário e concordava "da boca para fora" com as solicitações. A divulgação da gravação causou a maior crise do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Waldomiro era subchefe de Assuntos Parlamentares, encarregado da articulação com o Congresso. SóciosSegundo documentos que também ajudaram a reabrir as investigações - um relatório em italiano e uma "Sinopsis (sic!) das Investigações", em português -, o dinheiro era obtido com a venda de heroína e cocaína da América do Sul para a Europa e depois lavado por seis diferentes caminhos. Um, dizem os relatórios, usava caça-níqueis importados da Espanha para o Brasil, onde os jogos eletrônicos foram liberados nos anos 90. Depois, essa rota de lavagem se expandiu pelas Américas do Sul e Central e chegou à Síria. Máquinas e bingos foram proibidos no Brasil por medida provisória em 2004, após surgir o escândalo Waldomiro, em fevereiro. Os relatórios enviados pelos procuradores Giovanni Salvi e Pietro Salviotti acusam as empresas Bingo Matic Produtos Eletrônicos, Betatronic Produtos Eletrônicos, Nevada Diversões Comércio Importação Exportação e uma identificada como "Fábrica". Também é citada a Astro Turismo, por suposta lavagem. Na Bingo Matic, era sócio Alejandro de Viveiros Ortiz. Documentos apontam ainda que um dos seus sócios era Giuseppe Aronica, que também integrou a Betatronic, na qual outro sócio era Lillo Rosario Lauricella, um italiano de Palermo denunciado por tráfico e lavagem de dinheiro nos relatórios. PadrõesOs investigadores italianos identificaram pelo menos uma remessa de um bilhão de liras (cerca de R$ 3 milhões) feita por Alessandro Pellegrinetti, irmão de um dos chefes da quadrilha, Fausto Pellegrinetti, para Lauricella. Procuradores também acusam Ortiz de participar da Betatronic. "Para dar imediatamente alguns padrões essenciais, se pode notar que a importação dessas máquinas concerniu vários cargos (sic!) de aparelhos eletrônicos, um dos quais atingiu as 5.000 unidades", informam os relatórios. "Nesse caso particular, que foi mais significativo para as investigações, o investimento (...) se aproximou a cerca de 16-18 bilhões de liras italianas. Isto é compreensível considerando que o custo de cada máquina - cerca de 2.500 dólares EUA, foi amortizado com as receitas de apenas 4 ou 5 meses. (...)." Os procuradores afirmam ainda que o investimento declarado foi de US$ 8 milhões, além de "ulterior e sucessivo investimento de além de 18 bilhões de liras italianas" - o que, convertido pelo câmbio da época e somado, chega a US$ 17 milhões. O esquema dos caça-níqueis também incluía a Jebra, uma empresa constituída em Jersey, paraíso fiscal nas ilhas britânicas. O dinheiro, segundo apurado pela Operação Mau Olhado da Polícia italiana, também era lavado de outras cinco maneiras: por investimentos imobiliários geridos da Holanda, Antilhas Holandesas e Ilha de Cavallo, na Córsega; pela importação de ferro-gusa da Europa Oriental, a partir de empresas da Itália e República de San Marino; pela importação de frutas da República Dominicana, México, Belize e Equador para venda na Europa e Oriente Médio, por empresas da República Dominicana e em Guernesey (ilhas britânicas); por cassinos; e por empresas especializadas em cathering (refeições quentes para viagem).

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