Mãe de réu quer justiça, não vingança

Quando Naira Nader Almeida começou a falar nesta sexta-feira para o júri, seu filho, um dos acusados pela morte do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, parecia ver à sua frente uma mulher diferente. Tomás Almeida emocionou-se. "Não quero que uma vida se pague com outra", disse Naira, a única das mães dos réus a depor em favor do filho.As palavras de Naira transmitiram o sofrimento de uma pessoa que já passou por tragédias. Primeiro, perdeu o marido, assassinado. E, desde 1997, tem um dos três filhos preso. Seu depoimento, às 2 horas, foi o último de uma série. No total, a defesa dos quatro rapazes acusados da morte de Galdino arrolou 19 testemunhas.Naira emocionou a todos na sala da sessão e transmitiu credibilidade. Não desempenhou o papel de testemunha, era apenas uma mãe que falava, antes de tudo, do sofrimento de outra mãe, a índia Minervina."A dor de dona Minervina é muito grande. Fiquei em silêncio este tempo todo em respeito a ela", afirmou Naira. "Perder um filho dói muito e, por isso, quero que o meu pague pelo que fez, mas com justiça e nunca com vingança."Naira contou, chorando, detalhes sobre a vida do filho. Disse que Tomás era o único que estava cursando faculdade, entre Eron Chaves, Max Rogério e Antônio Novély, os demais acusados. Disse também que ele tinha uma vida diferente da dos outros. Cuidava do almoço e arrumava a irmã pequena para ir à escola, enquanto ela trabalhava."Tivemos de reorganizar nossa vida depois da morte do meu marido", contou Naira, que aparenta mais do que os cerca de 40 anos que tem. Ela contou que teve pouco tempo para refazer sua vida e a de seus filhos. Menos de seis anos após ficar viúva, Tomás e o caçula, G., então menor de idade, se envolveram na morte de Galdino."A vida desses rapazes está marcada para sempre. A condenação, qualquer que seja, não será maior do que a que eles carregarão por toda a vida", disse, no fim de seu testemunho. O depoimento não foi interrompido nem mesmo pela acusação.Naira ficou chorando por um bom tempo, enquanto advogados, promotores e a juíza Sandra de Santis estavam mais preocupados em marcar o horário da próxima sessão.A platéia, entretanto, acompanhou com emoção o relato de todo o drama da mãe de Tomás. O acusado parecia estar fazendo um esforço para não chorar.Enquanto Naira saía da sala do júri, acompanhada por uma funcionária do tribunal, Tomás seguia com o olhar os passos da mãe. Ela, porém, não olhou para trás.

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