Madeiras apodrecem em assentamento

Avaliadas em R$ 10 milhões, toras devem ser leiloadas e não podem ser usadas por sem-terra em Iaras (SP); famílias padecem sem água e energia

José Maria Tomazela, enviado especial de O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2011 | 22h40

IARAS - Milhares de metros cúbicos de madeira avaliados em R$ 10 milhões apodrecem nos lotes ou são consumidos pelo fogo no assentamento Zumbi dos Palmares, em Iaras, a 263 km de São Paulo. Com as áreas cobertas de tocos e árvores mortas, os assentados não podem plantar nem usar a madeira para substituir os barracos de lona.

 

As famílias assentadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) estão há três anos sem água, energia elétrica e demais recursos para tornar o lote produtivo. Muitas passam fome ou sobrevivem da coleta de casca de pinus, vendida como adubo a R$ 2 a saca, mas não podem tocar na madeira cortada, que vale R$ 30 o m³.

 

O quadro de abandono e desperdício de dinheiro público ocorre numa região em que o Movimento dos Sem Terra (MST) invade fazendas, como a Santo Henrique, da empresa Cutrale, para exigir mais terras para assentar outras famílias. A floresta, que está virando cinzas, custou R$ 13 milhões aos cofres da União e deveria reverter em recursos para os assentados. Uma cooperativa do próprio MST, contratada pelo Incra em 2008 para cortar e comercializar a madeira, foi acusada de desviar o dinheiro. Acionado, o Ministério Público Federal embargou o corte das árvores que restavam, mas autorizou a venda em leilão público. O Incra proibiu os assentados de usar a madeira cortada, mas até agora não realizou o leilão. O assentado que retirar madeira perde o lote.

 

Foi o que ocorreu com a assentada Ondina da Silva Baessa. Ela conta que mudou de lugar uma pilha de madeira que estava na entrada do lote porque um escorpião picou seu filho. Em janeiro deste ano, a assentada foi notificada pelo "sumiço" da madeira e apresentou defesa, que não foi aceita. Ondina entrou com recurso que também foi indeferido e, na semana passada, foi intimada a desocupar seu lote. "Caso isso não ocorra, a autarquia promoverá sanções civis e penais", adverte o ofício do coordenador do Núcleo de Apoio do Incra em Iaras, Jairo Tadeu de Almeida.

 

O marido de Ondina, José Antonio Domingues Maciel, presidente da Associação dos Assentados do Zumbi dos Palmares (Arzup), diz que nada é feito para evitar que toda a madeira seja consumida por incêndios.

 

Fogo e prejuízo. No dia 14, o fogo reduziu a cinzas uma pilha com 5 mil m³ de pinus - um prejuízo de R$ 150 mil. Boa parte dos 1,4 mil hectares da floresta que ainda está de pé também foi atingida. Os troncos calcinados vão caindo aos poucos, mas não podem ser cortados. O assentado José Hilário Paulino de Moraes, de 51 anos, percorre as pilhas tirando as cascas da madeira. Cada saca com 8 kg é vendida por R$ 2.

 

É do que ele e a família sobrevivem. "Sem água, não dá para fazer nem uma horta", reclama. O Incra abriu uma clareira de 100 m² no lote, mas não fez a destoca. Os 300 m³ de pinus apodrecem no terreiro.

 

Outro assentado, Edmar Luzia, 46 anos, percorre as áreas de pinus não queimadas para colher a resina dos troncos. Pelo menos 40 famílias vivem dessa extração, mas a atividade é clandestina. No lote de Aparecido dos Reis, de 37 anos, as árvores ainda em pé estão com o tronco queimado. Sem energia elétrica e sem poço, sua mulher, Noemi Marcelino, caminha quase dois quilômetros para buscar água.

 

O casal vive com cinco filhos num barraco de lona. "Estamos há três anos nessa miséria, chegando a pedir para comer." Aparecido conta que deixou o do Pontal do Paranapanema há seis anos com um grupo do MST para fazer a ocupação. "Viemos no escuro, com a promessa de um lote, mas acabamos embaixo da lona."

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