Tasso Marcelo/Estadão
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Machado recebeu de banco que serviu à máfia russa

Procuradores suíços e do principado de Andorra se uniram para investigar ex-presidente da Transpetro, trocando informações confidenciais sobre suas contas e tentando traçar o destino de propinas milionárias

Jamil Chade/Enviado especial, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2017 | 05h00

ANDORRA - Procuradores suíços e do principado de Andorra se uniram para investigar o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, trocando informações confidenciais sobre suas contas e tentando traçar o destino de propinas milionárias.

A descoberta da rota do dinheiro levou à constatação de que Andorra foi utilizada como base para que a construtora Camargo Correa pagasse supostas propinas para políticos brasileiros. Para isso, a empresa teria usado um banco acusado de ser o instrumento de lavagem de dinheiro de grupos criminosos pelo mundo e da máfia russa. 

Machado fechou um acordo de delação premiada em meados de 2016. Em troca das informações sobre como funcionava o esquema de corrupção na Petrobrás, ex-presidente da Transpetro pagou multa de R$ 75 milhões. Em sua delação, ele relatou ter repassado propina a mais de 20 políticos de diferentes partidos, passando por PMDB, PT, DEM, PSDB, PC do B e PP. Documentos obtidos pelo Estado e que foram transmitidos entre Berna e Andorra revelam como procuradores de paraísos fiscais já desconfiavam do brasileiro. 

Numa carta enviada "com urgência" pelo Ministério Público da Suíça para Andorra em 1 de junho de 2016, Berna alerta para a situação de Sérgio Firmeza Machado, filho do senador e sob suspeita de "lavagem de dinheiro agravada". Segundo os suíços, um inquérito foi aberto no dia 29 de dezembro de 2015 contra o brasileiro. "Firmeza Machado é um filho de Sérgio Machado, ex-senador e ex-diretor da Transpetro. Ele é suspeito de ter recebido propinas no caso da Petrobras", explicaram os suíços. 

De acordo com Berna, Machado teria desviado entre 2004 e 2012 cerca de R$ 256 milhões, "favorizando diferentes empresas de construção organizadas em um cartel". Uma dessas empresas seria o grupo Camargo Correa. Para os suíços, o caso no Brasil se referia a um "gigantesco sistema de corrupção e de financiamento de partidos". 

Berna indicou às autoridades de Andorra que o filho do ex-presidente da Transpetro era "suspeito de servir de homem de palha para seu pai, recebendo fundos provenientes da corrupção de sua conta na Suíça, aberta em nome da empresa Jaravy Investiments Inc, e o lavando abrindo diferentes contas na Suíça". Um dos bancos utilizados foi o HSBC Private Bank, em uma conta No 2101459, da qual Sérgio Firmeza Machada era beneficiário. 

De acordo com um levantamento de suas movimentações, Berna descobriu oito transferências, cada uma de US$ 492 mil, debitadas da conta 490005, pela empresa de fachada DESAROLLE LANZAROTE SA na Banca Privada D'Andorra, para a Jaravy Investments, de Machado. 

A conta em Andorra, porém, seria uma "conta corrente usada no exterior" pela Camargo Correa para transferir propinas a "políticos brasileiros". "As relações bancárias abertas na Banca Privada d'Andorra, como a conta 490005 em nome da DESAROLLE LANZAROTE SA, seria utilizada para tais transferências", indicam os suíços. 

Na carta, Berna solicita das autoridades de Andorra dados sobre a conta 490005, em nome da DESAROLLE LANZAROTE SA e aberta na Banca Privada d'Andorra. Na lista de pedidos estavam documentos de abertura da conta, como identidade do correntista, formulários preenchidos pelos suspeitos e toda a movimentação, além de justificativas de depósitos e as correspondências entre os gerentes e os clientes. 

Crime organizado. Parte da investigação ainda aponta para a própria escolha do banco. A instituição, acabou sofrendo uma intervenção por parte das autoridades de Andorra em 2016. Um ano antes, o Departamento do Tesouro americano havia classificado o banco no principado como "uma preocupação maior de lavagem de dinheiro".

Segundo as autoridades americanas, o banco teria ajudado o crime organizado russo a lavar dinheiro, além de ter aceito recursos de políticos estrangeiros que teriam desviado recursos de seus países. De acordo com Washington, o banco também estaria sendo usado para lavagem de dinheiro envolvendo clientes venezuelanos e chineses.

Defesa. Já a construtora Camargo Correa diz que não pode se manifestar "por compromisso de confidencialidade". Já o advogado António Moraes Pitombo, que defende o ex-presidente da Transpetro, se manifestou por meio de nota. Leia na íntegra abaixo:

"Conforme detalhado por Sergio Machado e seus filhos em seu acordo de colaboração, entre as empresas que fizeram pagamentos de propina na conta do HSBC da Suíça está a Camargo Correa. Tal relato está detalhado em seus Termos de Colaboração, e mais precisamente no Anexo denominado "Negociação com Estaleiros", onde constam os montantes recebidos da Camargo Correa no exterior. Adicionalmente, a informação detalhada sobre as transferências recebidas da Camargo Correa no HSBC na Suíça, assim como que "a maioria delas eram feitas pela empresa DESAROLLO LANZAROTE" e que teriam como "origem contas situadas em Andorra", constam do Termo de Colaboração de seu filho Expedito Machado da Ponte Neto e de anexo "Camargo Correa", e inclusive de reportagem de capa da revista Veja de 18 de janeiro de 2017. Os documentos suporte e extratos da referida conta no HSBC da Suíça foram entregues à PGR à época da colaboração, assim como foram prestadas todas as devidas informações e esclarecimentos às autoridades suíças", diz a nota.

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