Omar Torres/AFP
Omar Torres/AFP

Lutarei até o fim para mostrar que não estou ligada, diz Dilma sobre Lava Jato

Em entrevista à TV francesa, presidente rebate o que chama de tentativa de envolvê-la no esquema de desvios e defende doações recebidas pelo PT: 'Por que só a minha campanha foi destacada?'

Fernando Nakagawa e Andrei Netto, correspondentes, O Estado de S. Paulo

08 de junho de 2015 | 15h28

Atualizado às 22h51

Londres e Paris - Em entrevista a uma rede francesa exibida ontem, a presidente Dilma Rousseff afirmou que vai “lutar até o fim para mostrar” que não tem ligação com os casos de corrupção na Petrobrás revelados pela Operação Lava Jato. E reclamou de outras campanhas eleitorais não serem tão questionadas quanto a dela, embora tenham recebido doações de empresas sob suspeita.

Dilma falou à TV France 24 em razão da reunião de cúpula entre a União Europeia e a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), amanhã e quinta-feira, em Bruxelas. Na entrevista de 25 minutos, a presidente tentou dissociar a Petrobrás da Lava Jato, ao afirmar que o caso atinge “determinados funcionários de alto nível” da estatal, e não toda a empresa. “Esse escândalo diz respeito a empregados da Petrobrás que estavam em acordo com empresas para tirar vantagens. Isso não aconteceu com todas as empresas, nem com todos os partidos.”

Em seguida, Dilma reclamou de suposta perseguição. A pedido da oposição, a Justiça Eleitoral abriu investigação sobre eventual relação entre as doações de sua campanha e os desvios na Petrobrás e deve ouvir hoje o doleiro Alberto Youssef, delator da Lava Jato. “Todas as campanhas feitas no Brasil têm contribuições de todas essas empresas. Não tem por que só a minha ser destacada. Quando isso acontece, se trata de atividade política”, disse.

Para Dilma, haveria uma tentativa deliberada de envolver suas campanhas no escândalo, tese que refutou em tom áspero. “Não existe nenhum indício que o prove. Não só em 2010, mas também em 2014. Todos os candidatos que concorreram comigo receberam dinheiro dessas empresas de forma legal.”

Ao ser questionada se “assumiria suas responsabilidades” – expressão que em francês equivale a “demitir-se” – caso seja provado seu eventual envolvimento em corrupção, Dilma se mostrou irritada. “Eu não tenho nada a ver. Eu não respondo a essa questão porque sei que não tenho nada a ver”, afirmou. “Lutarei até o fim para mostrar que não estou envolvida. Tenho uma história. Nunca foi acusada de nada.”

Mudanças. Na entrevista, Dilma defendeu o ajuste fiscal e reconheceu que teve “de mudar de política”. Para ela, governos de esquerda têm de ter a coragem de realizar cortes de gastos quando “é necessário mudar”.

“Governo de esquerda, de direita ou de centro – e eu acho importante que um governo de esquerda demonstre isso –, quando percebe que é necessário mudar, tem de fazê-lo, tem de ter a coragem de fazer”, disse. “Tivemos de mudar a política.”

Dilma afirmou que programas sociais e investimentos serão preservados. “Os cortes estão muito mais na ampliação do que no que já conquistamos”, disse, citando o ex-presidente socialista François Mitterrand, que governou a França entre 1981 e 1995. “Um governo de esquerda tem que mostrar ser capaz não só de fazer política social, mas também de fazer política macroeconômica de estabilização.”


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