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Lula vai à luta

O diagnóstico não é novo, mas vem sendo repetido cada vez com mais frequência e contundência principalmente entre governistas: a crise é política. E a solução, portanto, só pode ser política.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2015 | 02h04

Arte, porém, que nesse governo não se exerce como demonstrado pela quantidade de desventuras em série produzidas pelo Palácio do Planalto antes mesmo de o carnaval chegar. Essa constatação tem levado petistas a apelar ao ex-presidente Luiz Inácio da Silva que "pegue esse touro na unha".

Ou seja, faça política, assuma o papel de articulador, se não do governo, ao menos do partido que se sente atordoado em meio ao escândalo da Petrobrás, às medidas do ajuste fiscal, às derrotas sucessivas na Câmara, à supremacia política do PMDB, à perda acentuada de popularidade da presidente Dilma Rousseff e à deterioração da imagem do PT na sociedade.

A reclamação central é a de que ninguém conversa com ninguém. Não há coordenação, não há diálogo nem informação. As medidas do ajuste, por exemplo. Desde o anúncio, os parlamentares do PT reclamam que estão sem discurso no Congresso e junto às bases eleitorais. Resultado: petistas tomam a iniciativa de propor modificações nas medidas do governo reforçando o cenário de desgoverno.

A inquietação dos petistas é com a sobrevivência individual e coletiva. Um deles chegou a perguntar a Lula sem meios-termos: "Afinal, ainda temos um projeto ou terminamos em 2018?".

Diante da resposta afirmativa sobre a permanência do "projeto", o interlocutor saiu da conversa confiante de que Lula vai à luta tendo como primeira e principal tarefa a reabertura dos canais de comunicação em toda parte.

No Congresso, nos partidos, nos sindicatos, nos movimentos sociais, com ministros do PT além daqueles com assento no Palácio, o importante, na avaliação dos petistas, é o partido procurar as pessoas e se movimentar para sair das cordas.

Para isso, o melhor embaixador é Lula que nos últimos tempos - segundo esses mesmos interlocutores - andou desanimado (para dizer o mínimo) com a falta de "escuta" da presidente Dilma. Ele chegou a sugerir que ela criasse comitês para gerenciar as diversas crises, da Petrobrás, da energia elétrica, da questão hídrica, mas não foi ouvido.

Promessa é dívida. A julgar pelo que se divulgou até agora, o governo pretende reagir com ações velhas a uma situação inteiramente nova. Nunca houve uma conjugação de fatores tão negativos como agora.

É possível que o marqueteiro João Santana - convocado para consertar parte do estrago feito por ele mesmo - tenha alguma ideia para recuperar pontos de popularidade e confiabilidade na avaliação do brasileiro sobre a presidente Dilma.

Os estrategistas do Planalto não conseguiram pensar em nada melhor que a batida e repetida fórmula: pronunciamento em cadeia de rádio e televisão, entrevistas, viagens, anúncio de pacote anticorrupção e defesa contundente da Petrobrás.

Tudo isso a presidente já fez inúmeras vezes. E não é disso que se trata. A situação não requer um remendo, um curativo improvisado, mas uma reformulação de fato. De verdade, para valer.

Duas promessas feitas pela presidente na noite de 26 de outubro passado logo após ganhar a eleição: o diálogo e ser "uma pessoa melhor".

Passo largo. O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, tem um plano. De voo. Dele faz parte exercer o mandato falando para a "sociedade". Se der certo, adiante partirá para candidatura majoritária.

Daí ter decidido logo de início exigir a presença de suas excelências nas tardes de quinta-feira e anunciar desconto no salário dos gazeteiros.

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