''Lula usou o sindicalismo como trampolim''

Waldemar Rossi, coordenador da Pastoral Operária; Ex-dirigente do PT diz que objetivo sempre foi o poder e antigos companheiros mentiram para o povo

Entrevista com

Ricardo Brandt, O Estadao de S.Paulo

07 de abril de 2008 | 00h00

O governo Luiz Inácio Lula da Silva usou o sindicalismo como trampolim para o poder e hoje comanda dando migalhas ao pobre e bilhões ao capital. A crítica mordaz parte de uma figura central da história sindical do País, que foi companheiro do presidente no PT e na criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Waldemar Rossi, 74 anos de idade e 53 de militância. "É tudo uma cortina de fumaça", afirma o homem que nas décadas de 70 e 80, à frente da Oposição Sindical Metalúrgica, enfrentou um dos símbolos do peleguismo sindical, Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão - presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, durante a ditadura.O governo Lula pode ser considerado o que mais conquistas trouxe aos trabalhadores?Lula conseguiu usar o movimento sindical como trampolim para chegar ao poder. Desde a fundação do PT, quando ele dizia que o partido foi criado para que, chegando no Congresso, pudesse defender o direito dos trabalhadores, ele estava dizendo, em síntese, que o eixo da luta deveria ser desviado para uma luta política maior. E não através da luta dos trabalhadores, como vinha ocorrendo desde maio de 78, com a retomada do movimento sindical.Mas não podem ser destacadas algumas conquistas?Ele trouxe o aprofundamento das injustiças, porque ele colocou em vários postos do governo pessoas da confiança dele, subordinadas a ele. E não pessoas que estavam lá para debater o melhor para o País. Gente que ele já sabia com toda sua experiência sindical que ia se subordinar. O Lula tem esse poder mesmo, fez isso no PT, fez na CUT e está fazendo agora. O sr. não daria ao presidente o título de governo dos trabalhadores?Quando mandei minha carta de desfiliação ao PT eu mandei para dizer o seguinte: o Partido dos Trabalhadores transformou-se no partido do capital e por isso não estou mais nele. Ele é o partido do capital, porque dá migalhas para os trabalhadores e bilhões e bilhões para o capital. As mudanças todas que ele está fazendo, reforma da Previdência, reforma tributária, a mudança da Lei de Falências, todas favorecem o capital. É o jogo do capital, e os que estão lá fazem a mesma coisa mentindo para o povo.A regulamentação das centrais sindicais não pode ser vista como uma conquista?Nós formamos as centrais em 83 e 84. Ele está legalizando, mas permitindo que essas centrais tenham muito dinheiro. Então ele esvazia o poder sindical de base e fortalece as centrais, que estão todas com o capital. O salário mínimo era para atender às necessidades da família, que hoje, segundo o Dieese, é de R$ 1.934. O que faz um chefe de família com quatro pessoas que tem de pagar aluguel com R$ 415? Isso tudo é uma cortina de fumaça. Você joga com determinados dados com uma eloqüência muito grande e engana o povo.O sr. faz críticas severas ao PT, mas foi um dos fundadores?Não sou fundador do PT, sou fundador da CUT. Eu tinha razões de natureza política para não aderir a um partido, qualquer que fosse. Já no ano de 78 eu apontava que é preciso criar outros instrumentos de luta. Quando surge o PT, toda aquela esquerda vai para o PT porque ali surge um partido da classe operária, dos trabalhadores. Eu entrei no fim de 85, porque acreditei naquele momento que o PT podia ser o que nós chamamos de um partido estratégico, capaz de criar um projeto alternativo de sociedade para se opor ao capitalismo.E o partido falhou nesse objetivo de fundação?O tempo foi mostrando que os interesses daqueles que ocuparam a direção do PT e a direção da CUT não eram exatamente os mesmos que eu tinha e muitos de nós tínhamos, que era elaborar um projeto alternativo. Essa revelação se acentua com a eleição de 89. Porque, quando se forma o governo paralelo, estavam dizendo o seguinte: "o PT está descartado". E o que esse governo paralelo estava trabalhando era uma linha de chegar ao poder por um processo que não fosse conflitivo com o sistema. Portanto, descartando todo o ideal petista.O sr. viveu essa mudança de ideal?Em 93 eu passei a fazer parte da Executiva Estadual e do Diretório Nacional. Em 94 houve a eleição em que o Lula enfrentou o Fernando Henrique Cardoso pela primeira vez e o José Dirceu foi candidato a governador do Estado. Ele também era o presidente do partido. Ao conviver três anos na Executiva eu percebi como é que se trabalhava o jogo do poder interno. Havia três movimentos: cooptar aqueles que pensassem diferente, neutralizar ou afastar. A pá de cal foi quando, terminada a eleição, a imprensa toda publicou os gastos dos partidos. Ao publicar isso, ela revelou quanto dinheiro entrou do sistema capitalista, das grandes empresas, dos bancos. O que foi um baque para a militância do partido, não para mim. Eu já tinha evidências claras disso. O PT imitou o PSDB. Virou um partido fundamentado no neoliberalismo para chegar ao poder, como fez o PSDB. Quem é:Waldemar RossiNa década de 70 foi líder da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo Metalúrgico aposentado, foi um dos fundadores da CUT, em 1983

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