Lula tem política silenciosa para direitos humanos

O assessor especial para política externa do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura, disse que o Brasil não é um país de "certificação", para sair distribuindo certificados de respeito aos direitos humanos em outros países, e deixou claro que a política externa adotada pelo Palácio do Planalto não está substituindo os Estados Unidos e a União Européia pela China ou pela Índia. "Nós apenas descobrimos que, nesses países, há oportunidades extraordinariamente importantes de incremento comercial e de investimentos recíprocos."Ainda a propósito da questão dos direitos humanos, que ocupou boa parte da entrevista, Garcia acentuou que, nos casos específicos da China e de Cuba, países já visitados pelo presidente brasileiro e nos quais o assunto foi evitado, o Itamaraty tradicionalmente não individualiza determinados fatos, evitando politizá-los unilateralmente, e tratá-los, "através de diplomacia muitas vezes silenciosa, que traz resultados melhores". O assessor de Lula ressaltou que isso não quer dizer que o governo brasileiro não leva em conta a importância de valorizar os direitos humanos, mas arrematou em seguida: "Eu quero insistir nisso: nós não temos a disposição de, enquanto governo, ficar opinando sobre a situação dos direitos humanos na China, na Arábia Saudita... Nós somos contra todas as restrições. E se você observar o voto de abstenção que nós tivemos na Comissão de Direitos Humanos (da ONU), no ano passado, quando o tema sobre execuções (em Cuba) se colocou, verá que nós fizemos uma enfática condenação, não só das execuções, mas inclusive do próprio processo (que condenou opositores de Fidel Castro à morte)."VenezuelaSobre as relações do governo brasileiro com o governo de Hugo Chaves, da Venezuela, Garcia insistiu que há diálogo não só com Chaves, mas também com seus opositores. Ele negou que tenha ocorrido um esfriamento nas relações entre os dois presidentes e considerou que a ausência de Chaves na recente reunião da Unctad, em São Paulo, pode ter sido em função dos problemas que está enfrentando quanto ao referendo que decidirá sobre sua permanência ou não no cargo. Explicou, ainda, que Lula não recebeu Chaves, quando de sua recente passagem de 24 horas pelo México, por absoluta falta de espaço em sua agenda. "Acho que não existe nenhum presidente que o presidente Lula tenha encontrado mais do que o presidente Chaves." Para o assessor de Lula, a grande preocupação do governo brasileiro é fazer com que a Venezuela encontre a reconciliação, embora considere essa uma tarefa difícil.Alca"A Alca sem o Brasil não existe", afirmou Marco Aurélio Garcia em outro trecho de sua entrevista. Explicou que os próprios Estados Unidos sabem disso, apesar dos acordos bilaterais que vêm fazendo com outros países do Continente. "Nós não vamos ficar isolados por uma razão muito simples, porque o mercado e o sistema produtivo brasileiros são suficientemente importantes, hoje, para interessar outros países." Mas, para o assessor de Lula, a Alca só se tornará viável se os EUA deixarem de proteger sua agricultura e sua indústria, com subsídios, medidas antidumping e fitosanitárias. "A Alca que hoje está em discussão é radicalmente distinta (da anterior). O que nós somos sempre insistimos é que, enquanto governo, não temos em relação à Alca uma postura ideológica. Admitimos que a sociedade brasileira tem o direito de fazer críticas, tem setores que apoiam e tem setores que criticam a Alca por razões iedológicas. Nós respeitamos essa postura, mas o governo não tem essa postura. O governo tem de consultar basicamente o interesse nacional. E o interesse nacional nos indicou que a melhor postura que nós deveríamos adotar era essa postura que o ministro Amorim formulou primeiro, e depois teve a condição de implementá-la na reunião de Miami."

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