Lula sugere diálogo sobre iraniana, mas vê soberania de Teerã no caso

Presidente afirma que proposta de asilo a condenada foi 'mais humanitária que política'.

Márcia Carmo, BBC

03 de agosto de 2010 | 22h27

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta terça-feira que está disposto a "conversar" com o governo iraniano a respeito do caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte no país por crime de adultério, mas admitiu que a questão é um assunto interno do Irã.

"Se houver disposição do Irã de conversar sobre esse assunto, nós temos imenso prazer de conversar", disse o presidente durante a Cúpula do Mercosul, realizada na cidade argentina de San Juan.

Em seguida, no entanto, o presidente afirmou que "cada país tem suas leis" e que é preciso respeitar seus "procedimentos".

"Cada país tem suas leis. Cada país tem sua religião. E nós temos que respeitar o procedimento de cada país. Se nós aprendêssemos a respeitar a soberania de cada país, seria muito, muito melhor, disse.

'Personalidade emotiva'

Presa desde 2006 por manter relações consideradas "ilícitas" com dois homens após a morte de seu marido, Sakineh Mohammadi Ashtiani foi sentenciada à morte por apedrejamento.

A sentença de apedrejamento, no entanto, foi posteriormente suspensa pelas autoridades iranianas, embora ela ainda possa ser morta por enforcamento.

No último sábado, durante um comício da campanha da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, Lula fez um "apelo" para que o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, permita que a mulher possa se asilar no Brasil.

Nesta terça-feira, no entanto, um porta-voz do Ministério do Exterior do Irã afastou a possibilidade e disse que o presidente Lula tem "personalidade emotiva", mas fez sua proposta de conceder asilo à iraniana sem "informação suficiente" sobre o caso.

'Humanitário'

Questionado sobre as declarações do porta-voz, Lula afirmou que seu pedido a Ahmadinejad foi "humanitário".

"Eu não fiz um pedido de asilo, não fiz. Eu fiz um pedido mais humanitário do que uma coisa política", disse o presidente.

Lula disse que leu nos jornais que Ashtiani poderia ser morta por apedrejamento ou enforcamento e afirmou considerar que nenhuma das duas mortes é "humanamente aceitável".

"Pelo respeito que eu tenho ao Irã, pela relação de amizade que nós construímos, eu, como cristão, acho que só Deus tem o direito de tirar vida. Eu acho que o apedrejamento é algo tão bárbaro que, por isso, eu disse que o Brasil receberia essa mulher de braços abertos", afirmou.

Eleições

Ainda durante a Cúpula do Mercosul, Lula defendeu o bloco e criticou aqueles que defenderam a criação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), que contaria com a participação dos Estados Unidos e foi discutida durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

"Lembro que, na campanha de 2002, esse era o grande tema. O meu partido e os movimentos sociais e sindicais éramos contra. Era Alca, Alca , Alca. Fomos acusados de desejar que o Brasil não se desenvolvesse. O fato concreto é que, nós ganhamos as eleições e, durante o nosso governo, os Estados Unidos nem sequer falavam mais em Alca", disse.

Falando sobre as eleições presidenciais de outubro, Lula disse que está saindo do cargo para "contemplar a oposição".

"Para quem está no governo, oito anos não são nada. Para quem está na oposição, oito anos são uma eternidade".

"Então, tenho que sair para contemplar a oposição, apesar de que acho que eles vão perder", disse.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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