Lula sobre Chávez: ''Não faria o que ele fez com a mídia''

Após a crítica, presidente disse que meios de comunicação foram duros com colega venezuelano

BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

04 de setembro de 2009 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que não daria aos meios de comunicação o mesmo tratamento dado por seu colega venezuelano Hugo Chávez, que se tornou alvo de críticas dentro e fora de seu país ao ordenar a revogação das licenças de dezenas de emissoras de rádio. "Eu não faria o que o Chávez fez com os meios de comunicação", disse Lula, em entrevista à agência francesa France Presse (AFP).

No início do mês passado, o Conatel, órgão que regulamenta o setor de telecomunicações na Venezuela, ordenou que fossem tiradas do ar 34 emissoras de rádio. O argumento apresentado na época pelo governo de Chávez foi o de que as empresas operavam com concessões irregulares. Com isso, foram colocadas sob risco de terem suas licenças cassadas cerca de 250 outras emissoras pelo país.

Na entrevista à France Presse, Lula fez questão de deixar claro que não endossa a decisão do governo Chávez. Ainda assim, o presidente brasileiro preferiu manter o tom cordial em relação ao colega e até o defendeu da ação dos meios de comunicação. "Creio que os meios de comunicação não deveriam ter feito com Chávez o que fizeram por muito tempo. Os meios de comunicação foram duros com Chávez", acrescentou o presidente.

Lula, que já declarou anteriormente que a leitura dos jornais lhe causa azia, mencionou sua própria batalha com a mídia no Brasil. "Eu aprendi a conviver com isso porque nasci na política brigando com as informações da imprensa. Mas Chávez não veio desse mundo político, veio das Forças Armadas. A cabeça dele não é como a minha", completou Lula, numa referência ao fato de Chávez ter ingressado na política quando era tenente-coronel do Exército venezuelano.

Em um afago ao colega venezuelano, Lula afirmou ainda que "há muitos anos a Venezuela não tinha um presidente que se preocupa com o povo e com os pobres como Chávez". Disse também que há muito "preconceito" com o fato de o presidente venezuelano se manter no cargo por três mandatos eletivos. "A democracia na Venezuela é aquela que a sociedade venezuelana entende que seja."

A decisão do governo venezuelano de fechar emissoras no início deste mês provocou uma ampla repercussão internacional. Na época em que a decisão foi anunciada, vários organismos internacionais condenaram publicamente a medida.

O grupo Repórteres Sem Fronteiras, por exemplo, descreveu o episódio como "um precedente perigoso para o futuro do debate democrático". O caso também tem sido alvo de duras críticas da Sociedad Interamericana de Prensa (SIP), que debaterá o assunto em um fórum sobre liberdade de expressão agendado para o próximo dia 18, em Caracas.

Em meio ao cerco à mídia venezuelana, chegou a ser colocado em discussão um projeto que previa prisão de até 4 anos para jornalistas que publicassem informações que "prejudicassem o interesse do Estado". A proposta, entretanto, foi abandonada após a forte repercussão negativa. Na ocasião, jornalistas, advogados e políticos da oposição venezuelana qualificaram o projeto como "o mais selvagem e brutal atentado contra a liberdade de expressão já perpetrado pelo governo de Hugo Chávez".

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