Lula se incomoda com proposta de terceiro mandato

'Eu já disse que é para parar com esse assunto', disse Lula, segundo relato do governador Campos (PSB)

Tânia Monteiro e Vera Rosa, de O Estado de S. Paulo,

09 de abril de 2008 | 20h09

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou nesta quarta-feira, 9, incômodo com a volta da proposta de terceiro mandato à cena política. Durante o vôo entre Brasília e Roterdã, na Holanda, onde desembarcou para uma viagem de quatro dias aos Países Baixos e à República Tcheca, Lula contou ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), que autorizou a bancada do PDT a bombardear a idéia. "Eu já disse que é para parar com esse assunto", disse Lula, segundo relato de Campos. Veja também: Brasil busca 'estratégia' para reagir a críticas ao etanol Em reunião com quatro senadores do PDT, na terça-feira, 8, o presidente ameaçou entrar no ringue contra o PTse companheiros de partido teimarem em mexer na Constituição para encaixar a emenda que prevê o terceiro mandato, em 2010. O senador Cristovam Buarque (PDT-DF), que estava no encontro, disse que Lula não escondeu a contrariedade. "Se o PT insistir nessa história de terceiro mandato, eu rompo com o PT", esbravejou. Integrante da comitiva de Lula, Eduardo Campos afirmou que ele não repetiu o comentário nesta quarta-feira, 9. Comentou, porém, que não gostou de ver o assunto ressurgir, quando já estava praticamente sepultado. "Eu também sou contra o terceiro mandato e a discussão desse tema, agora, só atrapalha o governo, que vai muito bem em todos os setores", observou Campos. Em Brasília, ninguém na cúpula do PT levou a sério a ameaça de Lula. "É mais fácil o Corinthians ser campeão paulista do que o Lula romper com o PT", afirmou o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), numa referência bem-humorada ao time do presidente, que foi desclassificado ao disputar o título. Berzoini disse que o PT não apóia o terceiro mandato e quer que as mudanças defendidas pelo partido, como o fim da reeleição, sejam aplicadas apenas para os próximos governantes, não para os atuais. "Não vamos fazer como o ex-presidente Fernando Henrique, que derrubou as regras para atender a sua conveniência partidária e permitir a reeleição", provocou. Nem mesmo o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), que prega mais tempo no poder para Lula, ligou para a cobrança do presidente. "Se Lula sair do PT vai para onde? Para Garanhuns?", ironizou o deputado, numa referência à terra natal do petista. "Ele está bravo, mas eu estou muito calmo, porque estou do lado do povo." Devanir começará a coletar na próxima semana as 171 necessárias para apresentar proposta de emenda constitucional que prevê a ampliação do mandato do presidente, governadores, prefeitos, deputados federais, estaduais, distritais e vereadores de quatro para cinco anos. O polêmico projeto embute uma manobra: não menciona explicitamente a possibilidade de mais um mandato, mas oferece o pacote de cinco anos no cargo, acompanhado do fim da reeleição. "Ao mudar a Constituição, abrimos uma brecha para Lula pensar lá na frente se quer disputar e governar mais cinco anos", admitiu Devanir. "Isso tem risco, porque qualquer um pode pegar carona nessa proposta e pôr lá a emenda do terceiro mandato", admitiu o líder do PT na Câmara, Maurício Rands (PT-PE). Auxiliares de Lula informaram nesta quarta-feira, 9, que ele quer aproveitar a viagem ao exterior para esfriar o debate eleitoral. Em conversas reservadas, admitiu que foi um erro ter lançado a candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, à sua sucessão com tanta antecedência. No Planalto, a avaliação é de que Dilma só virou alvo no episódio envolvendo a produção de um dossiê contendo gastos do governo Fernando Henrique por ter aparecido como herdeira preferida de Lula. Na viagem, o presidente disse que a população não quer saber de debate eleitoral nem de cartões corporativos: está interessada em emprego, salários e melhoria da qualidade de vida.

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