NELSON ALMEIDA/AFP
NELSON ALMEIDA/AFP

Lula afirma ser vítima de um 'pacto'

A uma plateia formada por militantes e sindicalistas, ex-presidente diz que decisão lhe deu uma 'coceirinha' para continuar pré-candidato ao Planalto

Vera Rosa, Juliana Diógenes e Marcelo Osakabe, O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2018 | 21h32

SÃO PAULO - Três horas depois de ser condenado pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, em palanque montado na Praça da República, que não vai desistir da disputa ao Palácio do Planalto porque uma “coceirinha” o faz seguir adiante. “Pobre daqueles que acham que prendendo o Lula acaba a luta. Quero avisar a elite: esperem que vamos voltar”, afirmou.

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Diante de uma plateia formada por militantes do PT, parlamentares, sindicalistas e integrantes de movimentos sociais, o ex-presidente disse ser vítima de um “pacto” entre o Judiciário e a imprensa para acabar com seu partido. “Se me condenaram, me deem pelo menos o apartamento”, afirmou Lula, em uma referência ao triplex no Guarujá, alvo da Lava Jato. “Quero que eles digam qual foi o crime que cometi. Estou condenado outra vez por um apartamento que eu não tenho. Já pedi para o Guilherme Boulos (líder do MTST) mandar o pessoal dele ocupar. Já que é meu, que ocupem”, ironizou.

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A estratégia de Lula consiste em adotar o discurso da vitimização. Nesta quinta-feira, 25, ele vai participar da reunião da Executiva Nacional do PT, que vai lançá-lo como candidato ao Planalto. “Eu nem precisava voltar, já estava aprovado, mas agora percebo que eles estão fazendo isso para evitar que eu seja candidato. Essa provocação é de tal envergadura que me deu uma coceirinha e agora quero ser candidato a presidente da República”, discursou. “Se cometi um crime, me apresentem um crime que eu desisto.”

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Chamado de “guerreiro do povo brasileiro”, Lula se comparou ao ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela, que era tido como terrorista e passou quase três décadas na cadeia. “Mandela ficou preso 27 anos. Nem por isso a luta diminuiu e ele foi eleito presidente”.

O ex-presidente acompanhou o julgamento de Porto Alegre na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, ao lado de antigos companheiros de jornada. Lula presidiu a entidade de 1975 a 1981 e foi dali que comandou várias greves, desafiando o regime militar. Antes do veredicto, disse aos militantes que esperava ser absolvido por 3 a 0. A portas fechadas, porém, não escondeu o abatimento.

A decisão do TRF-4 que condenou Lula por unanimidade a 12 anos e um mês de prisão fez o PT convocar ainda na quarta-feira, 24, uma reunião de emergência com alguns dirigentes, na sede do partido, em São Paulo. Na lista estavam o tesoureiro do partido, Emídio de Souza, os senadores Humberto Costa (PE) e Jorge Viana (AC), além do ex-ministro Celso Amorim, pré-candidato ao governo do Rio.

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O PT vai registrar a candidatura de Lula à Presidência em 15 de agosto no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e tentar reverter a decisão que pode torná-lo inelegível, mas, nos bastidores, considera remota a possibilidade de mudar o quadro.

“A partir deste momento, é radicalização da luta”, afirmou a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, em Porto Alegre (RS). Em nota, ela disse que o resultado do julgamento configura uma “farsa judicial”. “Se pensam que a história termina coma decisão desta quarta, estão muito enganados, porque não nos rendemos diante da injustiça”. 

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Choro. Assim que o voto do desembargador João Pedro Gebran Neto, relator do processo, foi lido, alguns petistas que estavam reunidos com Lula no sindicato caíram no choro. “Muita gente se emocionou”, contou o senador Humberto Costa. “Mas vamos até as últimas consequências com Lula. Se houver impugnação, isso deve acontecer por volta de setembro.”

O ex-ministro da Casa Civil e ex-governador da Bahia Jaques Wagner, um dos cotados para ser o Plano B do PT, foi dar um abraço em Lula no sindicato. Wagner almoçou com o ex-presidente. No cardápio, carne com cogumelo, arroz, feijão e macarrão japonês, servidos em quentinhas.

A televisão, segundo ele, estava desligada. “Para quê acompanhar o julgamento?”,perguntou. “Ele ficou naquela sala reservada do segundo andar conversando com amigos.”

Passava um pouco das 10 horas quando Lula chegou ao sindicato. “Comecei aqui e aqui vou recomeçar”, afirmou o ex-presidente. “Você vota em mim, Devanir?", perguntou ele ao ex-deputado Devanir Ribeiro, que foi diretor do sindicato.

O bom humor foi terminando à medida que o julgamento prosseguia. Apesar de esperarem a condenação, os petistas tinham esperanças no voto do revisor, Leandro Paulsen. Acreditavam que Lula poderia ter um voto favorável, abrindo uma divergência na Corte, o que lhe daria direito a mais um recurso na Justiça. “Recebemos com muita perplexidade esse resultado”, afirmou o senador Jorge Viana. “Fico chocado de ver essa caçada contra Lula. Não é possível que um tribunal tenha se partidarizado dessa forma.” 

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