Lula rende-se às prévias, mas não aceita debates

Luiz Inácio Lula da Silva rendeu-se. Foi convencido por seus companheiros de que, diante do "fator Suplicy", não há outra saída a não ser entrar na prévia para a indicação do candidato do PT à Presidência. Mas já avisou que não participará de debates com nenhum adversário petista. Seu argumento: o 12º Encontro Nacional do PT, que termina amanhã, em Olinda (PE), vai aprovar as diretrizes do programa de governo para a eleição de 2002 e, a partir daí, o pré-candidato terá de defender a plataforma do partido."Vou debater o quê?", perguntou o presidente de honra do PT, durante reunião com 30 dirigentes de várias facções, na quinta-feira à noite. "Vocês podem me inscrever, mas essa disputa é artificial e eu não vou bater boca."O desafio do PT, agora, será driblar a insistência do senador Eduardo Suplicy (SP) em relação aos debates. Amanhã, por exemplo, ele vai aproveitar sua participação no programa Casa dos Artistas para pedir ao apresentador Silvio Santos que o SBT promova um tête-à-tête entre os concorrentes do PT. O senador e a prefeita Marta Suplicy (PT), sua ex-mulher, vão ao programa para "resgatar" o filho Supla. "Mas também é uma oportunidade que tenho para dialogar com o Silvio", diz o pai do roqueiro, de olho em 2002.Além de abrir uma crise, o "fator Suplicy" tem outras conseqüências imprevisíveis na seara petista. Motivo: a prévia de 3 de março foi mantida com o único objetivo de evitar mais desgaste para o partido - que não quer ser acusado de manobra, como o PMDB - e, principalmente, para Lula, que deve disputar a quarta eleição presidencial. Só que o senador continua lançando torpedos na direção da cúpula."Quero ter o direito democrático de debater, mas algumas pessoas no PT se preocupam com a exposição das minhas idéias porque sabem que eu posso vencer", provoca o senador. Favorito em todas as pesquisas de intenção de voto, o corintiano Lula recorre ao futebol para observar que o santista Suplicy está fora da área. "A bola está na marca do pênalti, o goleiro está contundido e vamos ficar brigando entre nós para marcar o gol?" De qualquer forma, um atacante desse jogo deve ir para escanteio.Sem conseguir até agora apoio suficiente para sua inscrição na prévia, o prefeito de Belém (PA), Edmilson Rodrigues, tende a desistir. Depois de afirmar que no PT há "hostilidade" aos que pensam diferente, o prefeito vê no esvaziamento da prévia uma tática de "rolo compressor". Radical, Edmilson vai mais longe: "O programa de governo que o grupo de Lula apresenta não é o dos meus sonhos." Defensor do não-pagamento da dívida externa e da reestatização de empresas - itens que não constam da plataforma do PT -, Edmilson está irritado porque um acordo fechado quinta-feira à noite praticamente sepultou sua tentativa de registrar seu nome na prévia.Pelo acerto, um petista não pode abonar a inscrição de mais de um pré-candidato ao mesmo tempo, como ocorria antes. "Essa prática do apoiamento de um e de outro é execrável", resumiu o dirigente Luiz Dulci, cotado para ser o novo secretário-geral do PT. Como Lula conta com mais de 80% das assinaturas dos 81 integrantes do diretório nacional - quando é necessário apenas a metade deste porcentual -, a situação de Edmilson fica bastante complicada.Mudança à vistaApós muita dor de cabeça, os moderados garantem ter aprendido uma lição. Tanto que já falam em estabelecer normas mais rígidas para as prévias nas eleições de 2004, garantindo o mínimo de representatividade aos postulantes."A prévia é para ser feita quando há impasse real, uma disputa polarizada. É para resolver, não para criar problema", argumenta Lula. Na sua avaliação, o mais importante, na atual temporada de sobe-e-desce de candidaturas, é ampliar o leque de alianças com partidos de esquerda e de centro, incluindo o PL e dissidentes da ala governista do PMDB. Sem nenhum constrangimento. "As pessoas usam o PT como consciência crítica e exemplo do perfeccionismo político por um só motivo: querem que a gente continue perdendo", conclui Lula.No capítulo sobre política de alianças, o documento aprovado pelo encontro de Olinda fala em "abandono de práticas sectárias". "O PT tem de estar consciente de que o que está em jogo é a criação de um novo bloco de forças sociais e políticas capaz de ganhar as eleições, governar o país e iniciar um programa de reformas que mudará a face do Brasil e terá enorme repercussão internacional, particularmente na América Latina."

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