Lula reforça aliança com Bush em visita aos EUA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encontrará o presidente norte-americano George W. Bush neste sábado, 31. É o segundo encontro dos dois presidentes em apenas um mês, num gesto que denota o estreitamento das relações entre os países. Bush visitou o Brasil no começo do mês, quando ele e Lula anunciaram um ambicioso projeto para promover o uso regional e global de etanol como uma alternativa ao petróleo. Na visita que o brasileiro devolve a Bush na residência de campo de Camp David, ambos devem detalhar o projeto de etanol e discutir o avanço das negociações comerciais na rodada agrícola de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), entre outros temas. O diretor do Conselho Nacional de Segurança da Casa Branca, Dan Fisk, disse que os Estados Unidos buscaram reforçar a importância do Brasil ao marcar uma segunda visita entre os líderes no mesmo mês. "Uma das coisas que queríamos reforçar com a visita é a importância do Brasil. O Brasil é a maior democracia, a maior economia da América do Sul", disse Fisk a jornalistas. "Os presidentes consideraram que havia itens importantes na agenda para continuar as conversas. De certa forma, consideramos São Paulo como a parte um, e Camp David como a parte dois dessa discussão", acrescentou. Lula é o primeiro mandatário da região desde o mexicano Carlos Salinas de Gortari, em 1991, a ser recebido em visita oficial na residência de Camp David, nos arredores de Washington, no vizinho estado de Maryland. Fernando Henrique Cardoso foi recebido em Camp David por Bill Clinton, mas não em visita oficial. Ao chegar, na última sexta-feira, Lula pernoitou na Blair House, residência para hospedar chefes de Estado em frente à Casa Branca, outra deferência dada a poucos. Tal protocolo demonstra a importância que Washington quer dar ao Brasil num momento em que Bush, isolado em seu país e no exterior, busca se reconectar com a América Latina e com seus aliados na região, dizem analistas. Ao apontar o Brasil como um parceiro confiável, os Estados Unidos também estão mandando um recado ao venezuelano Hugo Chávez, um inimigo feroz das políticas norte-americanas. "Os Estados Unidos querem revitalizar sua relação com a América Latina e a relação com Lula é vista como uma âncora para isso", disse Daniel Erikson, analista do Diálogo Inter-Americano, um centro de estudos em Washington. Etanol e DohaA iniciativa de etanol foi criticada por Hugo Chávez e pelo cubano Fidel Castro, que escreveu um artigo, pela primeira vez desde que se afastou em julho para ser operado, em que condenou o uso de alimentos para produzir energia. "As críticas de Havana e Caracas sugerem que Lula e Bush estão fazendo algo substantivo e que começam a pautar o debate regional", disse Paulo Sotero, diretor do Instituto Brasil no Woodrow Wilson Center. Em Camp David, Lula e Bush devem anunciar a formação de um comitê para avançar com o projeto e realizar os estudos para atrair o setor privado a investir em terceiros países. Provavelmente quatro deles, do Caribe e América Central, devem ser anunciados no sábado. Entre eles deve estar o Haiti, onde o Brasil lidera uma missão de paz da ONU. O Banco Inter-Americano de Desenvolvimento (BID) entraria com US$ 7 milhões no projeto e cada um dos países com US$ 1,2 milhão de um fundo da ONU, disse um alto funcionário do governo norte-americano. Na mesa de discussão dos presidentes, deve entrar como tema importante ainda as negociações da Rodada de Doha. O Brasil lidera um grupo de países em desenvolvimento, o G-20, que luta pela redução de subsídios agrícolas nos países ricos. Os últimos, por seu lado, só prometem ceder se tiverem acesso ao mercado dos países em desenvolvimento nos setores de serviços e bens industriais. Neste sábado, Bush espera influenciar Lula para que o brasileiro possa exercer algum impacto sobre os países do G-20 e destravar as negociações comerciais.

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