Lula quer compromisso do PT de não dar ''último tiro'' em Sarney

Presidente considera que uma derrota do senador com empurrão petista porá em risco a governabilidade

Vera Rosa, O Estadao de S.Paulo

01 de agosto de 2009 | 00h00

Sem conseguir o apoio fechado do PT ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), o governo quer agora que o partido se comprometa a não dar o tiro de misericórdia no aliado cambaleante. Ainda irritado com a nota na qual o líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante (SP), pediu o afastamento de Sarney, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamará o petista para uma conversa nesta semana em que o Congresso retoma as atividades, após 17 dias em férias.A pelo menos dois auxiliares, o presidente contou que pedirá a Mercadante mais cautela em suas ações. O raciocínio de Lula, segundo esses assessores, pode ser resumido na seguinte frase: "Se o PT não puder ajudar, pelo menos que não atrapalhe."Dos 12 senadores que compõem a bancada petista, oito defendem o afastamento do presidente do Senado. Lula avalia que o PT está sendo "ingênuo" ao cobrar a licença de Sarney, alvo de denúncias de nepotismo, desvio de recursos de uma fundação que leva seu sobrenome e uso de atos secretos para nomeação de amigos. No diagnóstico do Planalto, uma derrota de Sarney com o empurrão petista porá em risco a governabilidade. Pior: fará o senador guardar o ódio na geladeira para dar o troco na campanha de 2010.Lula falou com Sarney por telefone e sabe que ele tem sido pressionado pela família a renunciar. Acha, porém, que o PT precisa ajudar o PMDB a construir uma saída negociada em qualquer cenário, e não jogar combustível na crise. Nos bastidores, o nome citado como alternativa da base governista para o caso de substituição de Sarney é o do senador Francisco Dornelles (PP-RJ), que tem boas relações com todos os partidos.PAPEL PASSADODe qualquer forma, embora Lula tenha arquivado os elogios públicos a Sarney e adotado discurso que mantém distância da turbulência, não é sua intenção abandoná-lo à própria sorte. Se depender do presidente, o aliado deve resistir. Além de conversar com Mercadante, ele também pretende se reunir com o próprio Sarney. Acredita, no entanto, que somente o senador poderá decidir seu destino diante do desgaste político.Na prática, Lula está preocupado com os efeitos colaterais da guerra em plena CPI da Petrobrás e de olho no casamento de papel passado com o PMDB, nas eleições de 2010. O PMDB é o partido com o qual o presidente sonha para vice na provável chapa ao Planalto liderada pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.Para Lula, ao fazer carga contra Sarney o PT joga água no moinho dos tucanos e atrapalha as alianças com o PMDB. "Eu não creio que o presidente Lula queira mudar nossa posição", disse o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), um dos que apoiaram a nota de Mercadante, divulgada há nove dias, durante o recesso. "Por toda parte os eleitores nos cobram posições consistentes com tudo o que sempre defendemos."O chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, saiu em defesa de Sarney. "Ele não pode ser o bode expiatório de todos os erros do Senado", afirmou Carvalho. "Estão querendo fazer agora uma Operação Mãos Limpas às avessas", emendou, numa referência à investigação que alvejou a máfia italiana, nos anos 90.A bancada do PT no Senado tem reunião marcada para terça-feira, quando está prevista a primeira sessão do Conselho de Ética. Sarney é alvo de 11 ações naquele colegiado: cinco representações (duas do PSOL e três do PSDB) e seis denúncias. A tropa de choque sarneyzista, comandada pelo líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), promete revidar o ataque tucano, apontando a artilharia para o senador Arthur Virgílio (AM), que dirige a bancada do PSDB.Em meio à batalha no Congresso, a ala do PT capitaneada pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, prega o sistema unicameral, com a extinção do Senado. A proposta consta da plataforma do grupo Mensagem ao Partido, que apresentou a candidatura do deputado José Eduardo Martins Cardozo (SP) na disputa pela presidência do PT. Questionado se esse programa não adicionaria mais um ingrediente picante no caldeirão da crise,Tarso respondeu: "Em absoluto. É uma posição doutrinária, sem qualquer ligação com a conjuntura que está aí." Para o ministro, o PT precisa, agora, encontrar "uma forma de prestigiar o Senado".

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