Lula quer Amorim em agência atômica

Plano do governo é esperar fracasso nas negociações para lançar o ministro como candidato de consenso

Denise Chrispim Marin, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

01 de maio de 2009 | 00h00

O desinteresse do Brasil em apresentar candidatura própria para a sucessão na Unesco encobre uma nova ambição da diplomacia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: alçar o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, para a posição de diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Ainda informal, a candidatura de Amorim está assentada na aposta de que vai fracassar a nova rodada de discussões na AIEA, iniciada na madrugada de ontem, para fechar o nome do sucessor de Mohamed El Baradei. O sucesso dessa empreitada levará Amorim a se desligar do governo Lula antes do fim do mandato para assumir, em Viena, o posto que El Baradei deixará em 30 de novembro deste ano.O cargo na AIEA permitiria a ascensão do chanceler, diplomata há 44 anos, à condução de um dos mais conceituados organismos internacionais, com 146 países-membros, em um momento desafiador para a não-proliferação de armas nucleares. Igualmente daria um destino de alto nível para Amorim, que nos últimos seis anos conquistou a total confiança do presidente Lula. BOM TRÂNSITODo ponto de vista do Itamaraty, o chanceler é considerado um dos raros nomes capazes de atrair o apoio de dois terços do conselho da agência, composto por 35 países. Conta a seu favor o bom trânsito com partes opostas nos debates sobre as questões nucleares, como os Estados Unidos e o Irã.Depois do fracasso das seis tentativas do conselho da AIEA de chegar a um nome para a sucessão do diretor-geral, a agência reiterou, nos primeiros minutos de ontem, a lista original com cinco candidatos. Dois deles já se mostraram incapazes de aprovação nas votações anteriores - o japonês Yukiya Amano e o sul-africano Abdul Samad Minty. Os outros concorrentes são o ex-ministro da Defesa da França Jean-Pol Poncelet, proposto pela Bélgica, o esloveno Ernest Petric e o espanhol Luis Echávarri. O processo de escolha se estenderá por quatro semanas.Se nenhum dos candidatos obtiver os 24 votos necessários, novos nomes poderão ser admitidos. Nesse momento, Amorim deve ser lançado pelo Brasil com a publicidade de "candidato de consenso". A estratégia de apresentar seu nome apenas ao final de um processo desgastante e frustrado de escolha vem sendo seguida com cuidado pelo Itamaraty. Uma das decisões vinculadas a esse objetivo foi a abertura de uma representação do Brasil diante da AIEA, desconectada da embaixada em Viena.Outra decisão relevante foi a negativa do Brasil em apresentar uma candidatura própria para a Unesco, apesar das pressões internacionais para que o fizesse. Nesse caso, conquistar a posição de comando da Unesco implicaria na necessária renúncia, pelo governo brasileiro, de postos de liderança em outros organismos internacionais, como a AIEA. O governo brasileiro dispunha de dois candidatos considerados fortes para a disputa pela direção-geral da Unesco - o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) e o atual vice-diretor-geral do órgão, Márcio Barbosa. Mas preferiu apoiar o mais polêmico dos nomes em jogo, o do ex-ministro de Cultura do Egito Farouk Hosni, que se notabilizou pela defesa da queima dos livros em hebraico das bibliotecas de seu país.

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