Lula quer afago ao PMDB antes de votar ajuste fiscal

Ex-presidente discorda de sucessora, para quem é preciso aprovar pacote fiscal primeiro e só depois negociar cargos públicos

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

21 de março de 2015 | 20h04

A presidente Dilma Rousseff diverge de seu padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva, em relação à receita para enfrentar a crise política que devasta o governo. Dilma avalia que, sem a aprovação do ajuste fiscal pelo Congresso, não há como sair da zona de turbulência, mas Lula tem outro diagnóstico e defende a remontagem da equipe para evitar que o casamento com o PMDB chegue a um “beco sem saída”.

Em recente reunião com deputados e dirigentes do PT, Lula não escondeu sua preocupação. “Esse Ministério, do jeito que está, não dura um ano”, disse o ex-presidente, em conversa reservada. O ministro da Educação, Cid Gomes (PROS), caiu no dia seguinte, após ruidoso bate-boca com deputados no Congresso – o fato tomou as manchetes dos jornais no dia seguinte, sobrepondo-se à agenda que o governo queria imprimir ao anunciar seu pacote de combate à corrupção.

Na briga para ver quem “larga o osso”, expressão usada por Cid, o PMDB quer agora se descolar do desgaste reinante em menos de 90 dias do segundo mandato de Dilma. Com os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), citados na lista de suspeitos no escândalo de corrupção da Petrobrás, a cúpula do partido adotou nova estratégia e vai sintonizar o discurso com as manifestações de 15 de março. A tática, agora, consiste em cobrar do governo a redução do número de ministérios, de 39 para 20.

“É preciso pôr o PMDB urgentemente no centro da articulação política”, diz o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), intrigado com a mudança de retórica do partido do vice-presidente Michel Temer.

Na avaliação de Lula, se Dilma ficar presa à agenda do ajuste fiscal e não jogar água na fervura do PMDB, sua popularidade vai cair ainda mais, porque o partido, no comando da Câmara e do Senado, tem o poder de complicar a vida do governo no Congresso.

Ameaças. O projeto de lei que estende o aumento do salário mínimo aos aposentados, por exemplo, virou agora o mais recente objeto de chantagem dos aliados contra do Planalto. Na quarta-feira, quando Cid ocupava a tribuna da Câmara e trocava estocadas com os deputados, Cunha ligou para Temer, que comanda o PMDB. No telefonema, o presidente da Câmara avisou que, caso Cid permanecesse no Ministério da Educação, ele não apenas incluiria na pauta de votações o projeto do mínimo, uma bomba-relógio que aumenta os gastos do governo, como levaria o PMDB para a oposição. Temer pediu um minuto e ligou de volta em seguida. “Acalme-se! Ele será demitido”, garantiu o vice a Cunha, em primeira mão, antes mesmo que o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, telefonasse para lhe dar a notícia.

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