Lula: próximo presidente deve ampliar classe média

A revista britânica The Economist publicou hoje uma extensa reportagem sobre as eleições brasileiras de 3 de outubro, que inclui uma entrevista com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na entrevista, Lula diz esperar que o próximo presidente, que ele acredita que será a candidata do Partido dos Trabalhadores (PT), Dilma Rousseff, construa um País onde a "grande maioria" da população seja da classe média. Lula também disse que o Brasil precisa de uma nova estrutura regulatória para agilizar a realização dos projetos de infraestrutura, com menos burocracia.

ANDRÉ LACHINI, Agência Estado

30 de setembro de 2010 | 19h37

"Este é o País que eu sonho e que será construído pelo próximo presidente: um País no qual a grande maioria da população seja da classe média, com poder de compra e acesso aos bens materiais, educação e saúde, melhores que nós possuímos hoje. O Brasil está pronto para isso, a autoestima das pessoas aumentou", disse Lula à revista. "Nós começamos a dar os passos para que os mais pobres comecem a subir para a baixa classe média e depois disso para a classe média", disse Lula.

Lula também afirmou que o Brasil ficou 25 anos sem grandes projetos de infraestrutura, até seu governo tomar posse, em 2003. Como obras que o governo federal realiza, ele citou a ferrovia Transnordestina, a transposição do Rio São Francisco e a Usina de Belo Monte. "Eu sempre digo que a última vez em que houve investimento em infraestrutura foi durante o governo Geisel (1974-1979), o que levou a um grande endividamento. O Brasil contraiu dívidas em dólares quando a taxa de juros era de 3%. Então, para resolver o problema fiscal nos Estados Unidos, Paul Volcker levou a taxa de juros a 21%, tornando a dívida externa do Brasil impagável - e nós gastamos os próximos 20 anos tentando resolver o problema da nossa dívida", afirmou Lula à revista, lembrando a crise econômica nos EUA no começo da era Reagan (1981-1982), quando Paul Volcker era presidente do Federal Reserve e subiu os juros.

Ele também disse que muitos engenheiros brasileiros preferiram ir trabalhar no mercado financeiro e que as empresas, pela falta de grandes obras no País, foram executar projetos em outros países da América Latina, EUA e África. "Acredito que a maior parte dessas dificuldades foi resolvida, as empresas estão aqui", disse.

"Muitas empresas brasileiras fizeram dinheiro em outros lugares, elas ganharam dinheiro construindo o Aeroporto de Miami (EUA), o Aeroporto de Trípoli (Líbia), elas ganharam dinheiro construindo usinas hidrelétricas na África, agora, elas fazem dinheiro no Brasil", acrescentou. Segundo Lula, esse "foi um processo de recuperar a capacidade produtiva deste País, que tinha desaparecido", afirmou.

Segundo turno

As outras matérias da extensa reportagem abordam a possibilidade de que ocorra um segundo turno na disputa presidencial e traçam um breve perfil de Dilma, de José Serra (PSDB) e de Marina Silva (PV), além de descrever as regras de um debate eleitoral presidencial na televisão brasileira, que a revista considerou bastante "rígidas".

Questionado pela revista se o respeito à democracia no Brasil pode ficar em risco com a vitória de Dilma Rousseff, Lula negou que essa possibilidade ocorra. "Eu posso dizer para os brasileiros e estrangeiros que isso é impensável, temos movimentos sociais organizados neste País, temos um Congresso em funcionamento, temos um Judiciário em funcionamento e temos uma mulher que, se eleita, será sempre comprometida com a democracia", disse Lula. Ele afirmou que, embora Dilma tenha sido presa e torturada na época do regime militar no Brasil, no começo da década de 1970, ela não "possui o mais leve traço de ressentimento".

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