Lula proíbe Dilma de ir a palanques

Na avaliação do Planalto, ministra precisa se preservar por ser primeiro alvo da oposição para atingir o governo

Vera Rosa e Leonencio Nossa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

23 de julho de 2008 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva proibiu ontem a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), de subir em palanques de candidatos no primeiro turno das eleições municipais. A ministra reclamou, alegando ter vários convites para participar de campanhas, mas não convenceu."Melhor não", disse Lula. Na avaliação do Planalto, Dilma precisa se preservar por ser o primeiro alvo da oposição para atingir o governo. A estratégia para blindar a mãe do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tem ingrediente adicional: Dilma é, até agora, a favorita do presidente para concorrer à sua própria sucessão, em 2010.Apesar de garantir que ficaria fora dos palanques na primeira rodada das eleições, para não melindrar a enxurrada de postulantes da base aliada, Lula aparecerá na campanha de dois ex-ministros petistas de seu governo: Marta Suplicy, em São Paulo, e Luiz Marinho, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. O governo entende que a vitória de Marta no maior colégio eleitoral do País é prioritária para o plano petista de retomar a Presidência, daqui a dois anos e meio.Na conversa de ontem com Dilma, Lula abriu uma única exceção: autorizou a participação da chefe da Casa Civil em disputas no Rio Grande do Sul, Estado onde ela construiu sua carreira política. No próximo fim de semana, por exemplo, a ministra promete engrossar ato de campanha da candidata do PT à Prefeitura de Porto Alegre (RS), Maria do Rosário. Detalhe: ela apoiou o ex-ministro Miguel Rossetto na prévia gaúcha e sofreu desgaste no partido porque o petista foi derrotado por Rosário."Eu gostaria de participar mais", retrucou Dilma, no fim da reunião de coordenação política do governo, quando o presidente comunicou a ela sua decisão. "Você está muito próxima de mim. É melhor a Casa Civil ficar fora", respondeu o presidente Lula.Na prática, o governo teme que a presença de Dilma nos palanques atice o PSDB e o DEM e ressuscite escândalos, como o caso do dossiê produzido na Casa Civil com gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com cartões corporativos e as denúncias da ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) Denise Abreu. Denise acusa Dilma de pressionar a Anac para agilizar a venda da Varig, mesmo com irregularidades no negócio. Para o Planalto, nada mais inconveniente do que mexer nesse vespeiro em plena temporada de eleição.RESTRIÇÃOArticulador político do governo, freqüentemente escalado para apagar incêndios na coalizão, o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro (PTB), também não aparecerá em comícios, restringindo sua participação a disputas em Pernambuco, seu Estado natal. Com exceção de Dilma e de Múcio, todos os outros ministros foram liberados por Lula para viajar nos fins de semana e apoiar os candidatos que bem entenderem, desde que tomando cuidado para não provocar fraturas na base governista.Lula quer que o Planalto e também os programas dos candidatos do PT e de partidos da base aliada ponham na vitrine investimentos feitos pelo governo em várias áreas que geraram emprego, para neutralizar notícias de aumento de juros e alta da inflação. "São números extraordinários e muita gente não sabe o que a gente está fazendo", disse ele. O presidente cobrou ainda o projeto de reforma política. Múcio e o ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmaram que a proposta deverá integrar a agenda do Congresso após as eleições de outubro. Na tentativa de aparar arestas, os dois ministros pretendem conversar ainda hoje sobre o assunto com o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP).

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.