Lula pede ao papa que fale com fiéis sobre a crise

Presidente teve audiência reservada com o pontífice durante visita ao Vaticano.

Fernanda Nidecker, BBC

13 de novembro de 2008 | 16h42

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ao papa Bento 16 nesta quinta-feira que fale publicamente sobre a crise financeira internacional e dê conselhos sobre como enfrentar seus efeitos."Falamos da crise e pedi que, em seus pronunciamentos, fale da crise, porque se todo domingo ele der um conselhozinho, quem sabe a gente não encontra mais facilidade para resolver a crise econômica", disse Lula durante uma coletiva a jornalistas brasileiros, após o encontro.Lula se reuniu com o pontífice no Vaticano em uma audiência privada de 24 minutos que teve a presença apenas de um intérprete.Os ministros Nelson Jobim (Defesa), Dilma Rousseff (Casa Civil), Celso Amorim (Relações Exteriores) e Luiz Dulci (Secretaria-Geral da Presidência), além das embaixadoras Vera Machado e Edileusa Fontenele e da primeira-dama, Marisa Letícia, acompanharam o presidente até a sala onde Lula se encontrou com o papa.Todas as mulheres vestiam preto e cobriam a cabeça com um véu da mesma cor. Marisa Letícia usava um colar dourado com uma medalha de Nossa Senhora Aparecida.Esta é a primeira audiência privada do presidente com um papa no Vaticano, mas não foi a primeira vez que se reuniu com o atual pontífice. Em maio de 2007, Lula recebeu Bento 16 durante sua visita ao Brasil. "Disse a ele que a minha maior preocupação é que esta crise não resulte no empobrecimento dos mais pobres", afirmou o presidente. "Tem muitos países ricos que aportam recursos para ajudar países pobres e eles não podem parar" porque dessa forma, acrescentou Lula, esses países vão se "sufocar".O presidente contou que também disse ao papa como são "injustas" as novas regras de imigração que estão sendo aprovadas pela União Européia. O papa teria concordado, disse Lula, que acrescentou que não poderia relatar o que o pontífice respondeu."Citei para o papa como o Brasil é um exemplo sobre como se deve tratar um imigrante", afirmou o presidente. "Nós estamos recebendo imigrantes há muitos séculos e nós vivemos bem.""Lá, nós temos alemães, italianos, japoneses, portugueses, árabes, judeus, bolivianos, uruguaios, argentinos e aprendemos a viver em harmonia. Então, o que nós queremos é que o mundo trate os imigrantes como parceiros", acrescentou Lula."Se não querem que africanos venham para cá, que os latino-americanos não vão para os Estados Unidos, a melhor forma é ajudar esses países a se desenvolver."Troca de presentesLula disse ter presenteado o papa com a escultura em barro de uma família de retirantes, feita por um artista pernambucano. De Bento 16, o presidente ganhou uma caneta. Ele ainda disse ter ficado "surpreendido" porque o papa está muito bem informado sobre o Brasil."Antes de ir ao Brasil, o papa passava a imagem de um homem sisudo, de poucos amigos", afirmou Lula. "Na verdade, quando ele chegou, chegou um homem afável, acho que ele conquistou o Brasil e que o Brasil o conquistou."Ainda segundo o presidente, o Brasil sempre trabalhou e sempre vai trabalhar para ter uma boa relação com todos os papas e com o Estado do Vaticano porque a "relação da Igreja com o Brasil é indissociável". AcordoDepois do encontro, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e o secretário do Vaticano para Relações com outros Estados, monsenhor Dominique Mamberti, assinaram o Acordo Brasil-Santa Sé.O documento consolida as relações entre a Igreja Católica e o Estado brasileiro, mas, na prática, não altera em nada o que já está em vigor.As 17 cláusulas do acordo já constam dos instrumentos jurídicos brasileiros, como a Constituição, os Códigos Civil e Penal, assim como de tratados internacionais.O documento aborda questões como o ensino religioso facultativo nas escolas públicas e reafirma a imunidade tributária para pessoas jurídicas eclesiásticas, como igrejas e arquidioceses. O acordo havia sido apresentado pela Santa Sé em outubro de 2006 e, desde então, passou por ajustes. Entre as emendas está a que assegura o ensino facultativo nas escolas públicas não apenas da religião católica, como também de outras crenças. Segundo a embaixadora brasileira junto ao Vaticano, Vera Machado, o ensino facultativo de todas as religiões já está previsto no artigo 210 da Constituição e na Lei de Diretrizes e Bases do Ministério da Educação. Portanto, não altera o que já está em vigor.O cardeal brasileiro d. Cláudio Hummes, que esteve presente na assinatura do ato, disse que o acordo reafirma o caráter laico e de pluralidade religiosa da sociedade brasileira e que em nenhum momento a Igreja procurou obter "privilégios"."No fundo, consagra apenas aquilo que é a laicidade do Estado e a liberdade religiosa", afirmou o cardeal.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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