Valéria Gonçalvez/AE
Valéria Gonçalvez/AE

Lula pede acerto no voto nas próximas eleições

Presidente volta a negar interesse em ficar no cargo e diz torcer para que escolham alguém melhor do que ele

Evandro Fadel, de O Estado de S. Paulo,

22 de junho de 2009 | 15h35

Em um clima próximo de campanha eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem, em Congonhinhas, no norte do Paraná, a cerca de 400 quilômetros de Curitiba, que seu governo foi o primeiro a investir nos pobres e, por isso, conseguiu muitas vitórias. Ele recomendou que as pessoas acertem quando forem votar nas próximas eleições. "Se a gente acertar nos políticos que a gente vai votar, a gente tem chance de melhorar as coisas ainda mais, porque neste país existem todas as condições de melhorar", acentuou.

 

O discurso foi feito perante dezenas de integrantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) e populares que compareceram ao Assentamento Robson Vieira de Souza, onde vivem 39 famílias, para colocar em funcionamento a instalação de número dois milhões do Programa Luz Para Todos. O presidente reclamou que um jornal, não nominado por ele, teria afirmado que o governo não cumpriu o cronograma do programa. "Só posso entender que esse companheiro não participou da festa, chegou no fim e queria dar palpite sobre a festa", disse.

 

Segundo ele, a proposta era de 2 milhões de ligações, mas ontem ele já teria feito a de número 2,040 milhão. "É um pouco mais", acentuou. A proposta agora é fazer mais um milhão de ligações até o fim do mandato. Entre os números apresentados por Lula, estão investimentos de R$ 9,8 bilhões pelos governos federal e estadual, 96 mil famílias decidiram voltar para o campo, 35,8% aumentaram a renda, 34% melhoraram oportunidade de trabalho e 41% das pessoas passaram a estudar à noite. "Foi uma pequena revolução que aconteceu neste País", acentuou.

 

De acordo com o presidente, isso não foi feito antes porque "pessoas que nunca moraram em casa sem luz não sabem o sofrimento de viver na base do candeeiro". "Quem vive com luz não sabe o que é tratar o filho doente na base da luz do candeeiro", acentuou. "Por isso o programa não foi pensado antes." Sob aplausos, criticou governos que levaram energia elétrica para as fazendas, mas faziam os fios passarem por cima das casas dos pobres sem que a luz chegasse até eles. "Nós começamos quase do zero nisto", afirmou.

 

Ele acentuou que houve necessidade de parceiras, mas também muita determinação. "Quando a gente define fazer política para os pobres eles falam que é gasto, quando é para os ricos é investimento", declarou. "Não existe investimento mais sagrado que cuidar dos pobres, pois o pobre custa muito pouco, ele não quer mais que o essencial, já o outro quer lucrar antes de produzir." Mostrando que se considera diferente, Lula afirmou que "o pessoal lá de cima pensa que mulher de pobre gosta de passar roupa com aquele ferro de carvão pesado pra desgraça."

 

Lula convocou a todos para mudar essa mentalidade. "A gente não vai fazer tudo que precisa ser feito no Brasil, sei que a gente não vai conseguir consertar em quatro, oito ou dez anos aquilo que foi feito em 500 anos", acentuou. Foi quando conclamou os que o escutavam a acertarem na hora do voto. "O Brasil não era respeitado ontem porque as pessoas que governavam este país não se respeitavam", criticou. "Os países ricos hoje sabem que o Brasil não deve nada a eles, sabem que a gente negocia em igualdade de condições, os países do mundo sabem que o grande feito do nosso governo foi colocar o pobre na mesa de negociação, foi colocar o pobre como ator social da política brasileira."

 

 

O mesmo tom de discurso já tinha sido utilizado pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Segundo ela, para chegar à comemoração de ontem foi preciso passar muitos entraves. "Havia uma concepção errada no País, aquela concepção de que basta que as coisas vão indo que o mercado uma hora vai assegurar luz elétrica para os pobres, não só o mercado não vai assegurar, como não o fez, porque não tinha dinheiro previsto para o programa", afirmou. "Não tinha dinheiro porque nos anos anteriores criaram um mito de que era absurdo o governo subsidiar as populações pobres."

 

No assentamento, Lula trocou o boné do Luz para Todos por um do MST e ganhou cestas com produtos da reforma agrária. Ele ainda brincou, dizendo que, após a ligação da energia elétrica, foi moer cana. "Tá certo que a máquina levou um dedo meu, mas já está no seguro esse dedo aqui e estamos tranquilos", disse. Ele também alertou a ministra Dilma, e, principalmente, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, para a necessidade de aumentar o valor do programa Minha Casa, Minha Vida. "Até um joão-de-barro (pássaro) está gastando R$ 7 mil para fazer uma casinha", disse. "Vamos ter que estudar direitinho porque R$ 7 mil já não dá mais."

 

Do assentamento, a comitiva do presidente foi até o centro da cidade, distante cerca de 5 quilômetros, para inaugurar o telecentro, que abriga biblioteca e rede pública de internet. A solenidade foi ao ar livre, com vários dos cerca de 8,5 mil habitantes da cidade comparecendo à praça, visto que foi decretado feriado no município. "Trazer o presidente da República já seria o maior dos feitos de um prefeito do interior, mas é maior ainda porque se trata do senhor presidente da República, o Lula, que é um presidente do povo", elogiou o prefeito Luciano Merhy (PTB). Lula não discursou no segundo evento, mas quebrou o protocolo e por vários minutos passou rente ao cordão de isolamento, sendo abraçado, beijado e requisitado para fotos.

 

Texto atualizado Às 17h50

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