Lula passa constrangimento ao visitar palácio de ditador

Presidente vai a suntuoso palácio de Blaise Campaoré no poder há 20 anos em Burkina Faso, na África

15 de outubro de 2007 | 17h00

Depois de defender mudanças na Organização Mundial do Comércio (OMC) e nas Nações Unidas para resolver os problemas econômicos e sociais da África, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve de passar pelo constrangimento de visitar, na manhã desta segunda-feira, 15, o suntuoso palácio do ditador de Burkina Faso, Blaise Campaoré no poder há exatos 20 anos.  Veja também:  Licença de Renan não altera votação da CPMF, diz Lula Lula é estrela de comemoração de golpe em Burkina Faso Na África, Lula critica estruturas da ONU e da OMC O conjunto de prédios de granito e azulejos verdes, onde trabalha e vive o líder da antiga colônia francesa de Alto Volta, independente em 1960, destoa na paisagem árida e seca de Uagadugu, a capital de um dos países mais miseráveis do continente africano. Todo o conjunto é cercado por um extenso jardim verde, com pequenas árvores podadas, que recebe água de um complexo sistema de irrigação. As margens de um rio que passava em frente foram cimentadas, para ganhar novos contornos. Mas o rio está seco. Dois cavalos de bronze em tamanho natural e um chafariz em forma de globo marcam a entrada do palácio. Duas centenas de soldados fazem ponto na guarita central. Pelos jardins, outras dezenas de militares fazem a vigilância do homem que chefiou um sangrento golpe de Estado em 1987, que resultou no assassinato do então presidente marxista Thomaz Sankara. A parte administrativa do palácio fica num primeiro prédio, logo depois do chafariz. É preciso andar mais um quilômetro até chegar a uma segunda construção. Ali reside o presidente de Burkina Fasso, que recebe os visitantes com um clássico ray ban. Outros prédios estão sendo erguidos na área. Segundo os poucos representantes da oposição que ainda vivem no país, Campaore não sabe diferenciar bem público e bem privado. Desde o golpe, ele realizou e venceu três eleições, sendo acusado de fraudar todas elas. Logo na entrada da luxuosa residência, onde na manhã de ontem Campaore ofereceu champanhe francês ao presidente Lula e a ministros brasileiros, um aparelho perfuma o ambiente. Jornalistas brasileiros puderam entrar na casa para acompanhar parte do encontro dos dois presidentes.  Grandes lustres de cristal iluminam a principal sala da casa. Conjuntos de micro lâmpadas, acima dos lustres, mudam de cores, alterando a luminosidade do espaço. Cerca de 50 poltronas e dezenas de cadeiras em madeira de lei estão à disposição dos moradores e dos visitantes do palácio. As portas e janelas da residência têm detalhes dourados. As cortinas são de seda.  Ostentação à parte, a residência certamente custou caro para um país que, segundo o próprio presidente Lula, conta com um orçamento que representa um décimo do orçamento da estatal brasileira Petrobrás. O país tem 13 milhões de pessoas, a maioria analfabeta. A comitiva de Lula também ficou impressionada com dois jaguares adultos empalhados usados para decorar o ambiente. O sistema de ar-condicionado da residência atende todas as dezenas de quartos, salas e corredores. Foi na varanda coberta por tapetes vermelhos e decorada com flores naturais que Campaore e Lula fizeram uma declaração à imprensa e falaram da importância de melhorar as condições de vida na África. 

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