Lula orienta Itamaraty a tentar esfriar caso

Reação italiana foi 'exagerada', disse ele, em conversas reservadas

Vera Rosa e Denise Chrispim Marin, do Estado de S.Paulo,

28 de janeiro de 2009 | 07h31

O governo brasileiro quer desidratar a polêmica gerada pela concessão de refúgio político ao italiano Cesare Battisti, condenado a prisão perpétua por atos terroristas em seu país. Em conversas reservadas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva considerou 'exagerada' a reação do Ministério das Relações Exteriores da Itália, que chamou a Roma seu embaixador em Brasília, Michele Valensise, e orientou seus auxiliares a não esticar o bate-boca. O Itamaraty, por sua vez, trata de jogar água na fervura da crise entre os dois países.'É fim de papo', decretou Lula, ao baixar a lei do silêncio sobre o caso e acentuar que seu governo não mudará a decisão favorável a Battisti, durante reunião de coordenação política de governo. A ordem foi dada na presença do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que tratou de cumpri-la à risca. 'Essas coisas despertam emoções. A melhor maneira de lidar com elas é o tempo', afirmou o chanceler ao Estado, na sexta-feira.Em uma gélida reação à iniciativa da Farnesina de chamar Valensise a Roma, o Itamaraty declarou, por meio de nota, que 'o governo brasileiro considera que todos os procedimentos sobre a questão estão sendo seguidos de acordo com a legislação brasileira'. 'Os laços históricos e culturais que unem o Brasil e a Itália continuarão a inspirar nossos esforços com vistas a aprofundar ainda mais as sólidas relações bilaterais nos mais diversos setores.'O Itamaraty confia que a Itália não cogitará no rompimento de relações diplomáticas e, como convém a seus interesses econômicos no Brasil, tenderá a igualmente baixar a temperatura de suas reações. Em princípio, o governo italiano terá amplo direito de apresentar seus argumentos diante do Supremo Tribunal Federal (STF), que deverá julgar o pedido de extradição de Battisti no início de fevereiro.'BOLA DIVIDIDA'Ao tratar do assunto em uma recente reunião no Palácio do Planalto, o presidente Lula orientou o ministro da Justiça, Tarso Genro, a não entrar em 'bola dividida' com o governo italiano. A responsabilidade, concluiu, é do Supremo. Essa posição não foi alterada nem mesmo com a reação de Roma, ontem.No Palácio do Planalto, a tese defendida por Tarso para conceder o refúgio a Battisti foi reiterada. Além de ser um ato de soberania nacional, afirmavam assessores de Lula, essa atitude faz parte da tradição do Brasil. REPERCUSSÃOO jornal norte-americano 'The Washington Post' publica reportagem da agência Associated Press que aponta uma 'escalada de disputas' após a decisão brasileira de 'garantir asilo a um fugitivo italiano'. O texto relata a história de Battisti, suas condenações na Itália e, em seguida, sublinha as declarações do ministro italiano das Relações Exteriores, Franco Frattini. 'Nós não esperávamos isso do Brasil, um país amigo. Battisti é um terrorista. Ele assassinou pessoas inocentes. Ele foi condenado pelos tribunais italianos', declarou Frattini. 'O governo italiano está explorando todas as possibilidades legais, como por exemplo ir até a Suprema Corte do Brasil (Supremo Tribunal Federal).'A estatal inglesa BBC caracterizou como 'protesto' a decisão das autoridades de Roma de chamar o embaixador italiano em Brasília para 'consultas'. Segundo a rede, os italianos ficaram 'enfurecidos' com o governo brasileiro por ter sugerido que a vida de Battisti poderia estar em risco caso ele retornasse para a Itália. O texto explica o significado da 'consulta' ao embaixador. Em linguagem diplomática, de acordo com a estatal, a convocação de Michele Valensise funciona como uma tentativa de 'mascarar a ira' do governo italiano. O material lembra ainda que Battisti foi preso no Rio de Janeiro em março de 2007, resultado de uma operação conjunta entre Interpol, Brasil e Itália.O jornal espanhol 'El País' publicou, na íntegra, o comunicado do ministério de Relações Exteriores italiano, que informa sobre o chamado do embaixador italiano no Brasil para 'consultas'. Classificou ainda a decisão do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, como 'resultado lógico', depois que o governo brasileiro decidiu conceder asilo a Battisti - situação que causou 'grande mal-estar na Itália'. De acordo com o jornal, o extremista fugiu da França após mudanças na política local sobre abrigo a ativistas refugiados e, por isso, acabou preso no Rio de Janeiro há quase dois anos.O jornal italiano Corriere della Sera apresenta a visão do ministro italiano Frattini e dá grande espaço para considerações do ex-premiê, Massimo D'Alema. De acordo com D'Alema, que governou a Itália entre 1998 e 2000, o Brasil cometeu um 'erro grave' ao conceder asilo político a uma pessoa que não 'merecia status de refugiado'. Para ele, a atitude foi tomada em detrimento de uma 'tentativa de retomar o diálogo político para encontrar uma solução para uma história perturbadora'. As críticas do ex-premiê ainda chegaram ao próprio governo italiano, que 'não teria conduzido bem o caso'. ÍNTEGRA DA NOTATexto divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores:'O Brasil tomou conhecimento da decisão do governo italiano dechamar para consultas o embaixador da Itália no Brasil, em razão do 'parecer expresso sobre o caso Battisti pelo procurador-geral da República'. O governo brasileiro considera que todos os procedimentos sobre a questão estão sendo seguidos de acordo com a legislação brasileira.O governo brasileiro reitera a confiança expressa pelo presidente da República, em sua carta dirigida ao presidente da Itália, de que os laços históricos e culturais que unem o Brasil e a Itália continuarão a inspirar nossos esforços com vistas a aprofundar ainda mais as sólidas relações bilaterais nos mais diversos setores.'var keywords = "";

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