André Dusek|Estadão
André Dusek|Estadão

'Lula no governo foi estupidez inominável', diz Ciro Gomes

Para ex-ministro, petista tem 'zero chance' de reaglutinar base e 'só um milagre' evita que Dilma sofra o impeachment

Igor Gadelha e Caio Junqueira, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2016 | 05h00

BRASÍLIA - Pré-candidato à Presidência em 2018, o ex-ministro Ciro Gomes (PDT-CE) disse nesta quinta-feira, 24, que a ida do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o governo Dilma Rousseff foi uma “estupidez inominável” que acelerou o processo de impeachment no Congresso. Para ele, Lula tem hoje “zero chance” de ajudar Dilma a reaglutinar a base aliada. Para Ciro, “só um milagre nos salvará” do impeachment. Ele avalia que PMDB e PSDB se articulam para “assaltar” o governo e, com isso, tentar a “morte” da Operação Lava Jato, que apura atos de corrupção na Petrobrás.

Como o sr. avalia a ida de Lula para o governo?

Trazer o Lula para dentro do governo foi uma estupidez inominável que acelerou e passionalizou muito a construção de um consenso que não existia, e ainda não existe, mas que deu muitos passos à direção da ruptura democrática brasileira através desse expediente golpista, porém, protocolar, que é o processo de impeachment.

Lula ainda tem poder de ajudar Dilma a reaglutinar a base?

Zero chance. O grande responsável por essa situação chama-se Luiz Inácio Lula da Silva, o que não quer dizer que ele não tenha direito à presunção de inocência. Colocar esse lado quadrilha da política na linha de sucessão é responsabilidade dele.

Lula é culpado pela crise por voltar ao governo ou pela composição política que articulou?

As duas coisas. Montar uma aliança política, loteando o governo, sabendo que o cara vai roubar. A última vez que eu conversei com ele sobre esse tipo de assunto e me afastei foi quando ele decidiu nomear um cara do Eduardo Cunha para Furnas. Eu disse: ‘Você está nomeando um cara que vai roubar, amanhã vai vir o escândalo e você que vai ser o responsável’. No dia seguinte, nomeou. E agora essa loucura de inventar de vir para o governo, confundindo República com coisa particular.

Como o sr. avalia o cenário?

Estamos fazendo uma marcha da insensatez, com grande velocidade e complexidade. Começa com essa desbaratada ideia de trazer o Lula para dentro do governo. De outro lado, você tem um juiz que é importantíssimo para o Brasil: a obra do juiz (Sérgio) Moro é muito importante, será referência histórica se ele não jogar isso tudo fora. De outro, temos um ministro do Supremo Tribunal Federal, que é o ministro Gilmar Mendes, que fica ao descuidado daquilo que é a ultima saída dos brasileiros que pensamos com equilíbrio, que é a confiança de que o Supremo vai corrigir essa marcha da insensatez.

E qual o papel de Dilma nessa “marcha da insensatez”?

Ela está cometendo três gravíssimos erros, que, combinados entre si, estão ameaçando desconstituir seu mandato e levar o Brasil a uma ruptura da democracia. Primeiro, é ruinosa a administração da economia. Temos hoje a pior recessão da história moderna do País. Segunda questão: está falhando gravemente nas projeções dos sinais de decência da coisa pública. A presidente Dilma é uma mulher honrada, decente, honesta, porém, os sinais são contraditórios. Ela entregou, por exemplo, a um afilhado do Eduardo Cunha a vice-presidência da Caixa Econômica Federal (Fábio Cleto, exonerado em dezembro). Terceiro: a destruição da esperança da sociedade, que foi construída nos últimos 12 anos por coisas práticas.

De que forma o governo pode superar a crise econômica?

Há mil caminhos. O câmbio já se ajustou, é possível anunciar uma tendência consistente e tão rápida quanto possível de queda da taxa de juros, construir um caminho de obstrução do colapso fiscal dos municípios, especialmente se tiverem compromisso com um grande programa de reversão de expectativas e com a retomada do desenvolvimento do País. É possível fazer um fundo soberano ou um fundo garantidor com base na fração das reservas internacionais para reestruturar as dívidas de empresas nacionais que estejam comprometidas com algum programa de investimento.

O sr. esteve com a presidente no Palácio do Planalto nesta semana. O que conversaram?

Conversamos sobre o momento brasileiro. Ela pediu ajuda para barrar o impeachment e eu disse que iria ajudar.

Acha que Dilma vai conseguir barrar o impeachment no final?

Só um milagre salva a nós, brasileiros. A queda dela é a ruptura da democracia e o nascimento de um governo ilegítimo.

Como o senhor vê a articulação PMDB/PSDB para um governo pós-Dilma?

O objetivo maior é assalto ao poder, tirando o povo da jogada. E o objetivo lateral é encerrar a (Operação) Lava Jato. A coalizão PSDB/PMDB está tentando, entre outras coisas, simples e puramente o fim e a morte da Lava Jato. A democracia precisa saber que o (procurador-geral da República, Rodrigo) Janot conseguiu mil contas na Suíça de políticos de tudo que é de partido. Eles estão fazendo jantares em Brasília e conversando explicitamente que é preciso acelerar o impeachment, derrubar a Dilma e sinalizar que a Lava Jato concluiu sua finalidade e está na hora de encerrá-la. Não estou dizendo que é fácil, nem que vão conseguir. Estou dizendo o que eles estão tentando. Assumindo a Presidência, fica mais fácil.

O sr. acredita em um futuro apoio do PT à sua candidatura em 2018 como o presidente do PDT, Carlos Lupi, tem defendido?

Só se eu fosse uma criança imbecil iria entrar num bobagem dessa. A natureza do PT é de ter candidato e não apoiar ninguém.

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