Lula nega incômodo com ditadores na África

Evento terá presença de líderes do Sudão, condenado por crimes contra a humanidade, e do Irã, alvo de protestos por suposta fraude eleitoral

Andrei Netto, TRÍPOLI, O Estadao de S.Paulo

01 de julho de 2009 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai celebrar hoje, na abertura da Cúpula da União Africana, em Sirte, na Líbia, os avanços nas trocas comerciais entre o Brasil e os países árabes e africanos alcançados nos últimos seis anos. Cercado de ditadores, como o presidente da Líbia, Muammar Kadafi, e de líderes políticos cuja legitimidade foi posta sob suspeita pela comunidade internacional, como o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, o brasileiro será o convidado de honra de um evento polêmico, do qual o governo não quer saber nem da pauta.O encontro de Sirte já era marcado pela profusão de ditadores entre os 53 chefes de Estado e de governo do continente, incluindo o presidente do Sudão, Omar Al-Bachir, desde março alvo de um mandado de prisão internacional do Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade. Em abril, Lula abandonou um almoço da reunião de cúpula dos países árabes e sul-americanos para não ter de se sentar ao lado do presidente do Sudão.O presidente iraniano confirmou sua presença no evento ontem à tarde, aumentando a saia justa diplomática. Ahmadinejad se juntará a Lula, ao primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, e ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), como "convidado de honra" do encontro.CONSTRANGIMENTODelegações africanas já reunidas em Sirte demonstraram descontentamento com a presença do iraniano, alvo de reprovações da União Europeia - principal parceiro econômico e político da União Africana - desde as suspeitas de fraude na última eleição presidencial.Lula, contudo, não se mostrou preocupado com as críticas. O presidente citou como uma das razões do convite a evolução do comércio entre o Brasil e a África (de US$ 5 bilhões em 2003 para US$ 26 bilhões em 2008) e entre o Brasil e os países árabes (de US$ 4,9 bilhões para US$ 20 bilhões no período).O presidente destacou os acordos que serão assinados com a União Africana para a produção de algodão e a cooperação em agricultura e desenvolvimento social. Além disso, enumerou os projetos econômicos mútuos, que reforçam a parceria "sul-sul" - uma das bases da política externa da governo petista.SOLIDARIEDADE"Nós achamos que o Brasil, os Estados Unidos e a União Europeia têm dívidas com o continente africano", afirmou Lula, lembrando o pedido de desculpas formal que fizera pela escravidão. "A dívida é impagável do ponto de vista econômico e financeiro, mas ela pode ser paga com solidariedade, com investimentos em projetos de desenvolvimento, para que vejamos a África crescer", reiterou. "Daí minha gratidão pelo convite."Lula disse ainda não se importar com a presença de líderes políticos controversos ao seu lado. "Quando você é convidado, não pergunta quem são os outros convidados. Você vai", justificou. "Aceitei sem perguntar quem vinha."Confrontado com a questão, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, também não viu contradições entre a presença do presidente brasileiro e de líderes africanos polêmicos. "O anfitrião tem o direito de convidar quem desejar", disse, referindo-se a Kadafi. "O presidente Lula foi chamado há muito tempo para ser o convidado especial da União Africana para a reunião de cúpula."Tampouco a agenda da cúpula interessa o Brasil. "O presidente Lula é um convidado de honra para falar sobre as relações entre o Brasil e a África", sintetizou. "A agenda para a reunião é problema deles. O Brasil não tem de se meter nisso. O presidente não vai tratar dos assuntos que são específicos e internos da África." O chanceler disse não saber quais foram os interesses do líder líbio ao chamar Ahmadinejad para o evento, mas afirmou que um eventual convite para um encontro entre os dois presidentes pode ser impossível por problemas de agenda.Questionado se o governo brasileiro não via no convite a Lula uma tentativa de capitalizar com a presença de um governante popular, Amorim ironizou: "A presença do presidente Lula sempre capitaliza para todo mundo. Os líderes dos países mais ricos querem aparecer na foto com o presidente Lula. É um presidente popular. He?s the guy". A expressão em inglês alude à afirmação de que Lula é "o cara", feita em abril pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. FRASESLuiz Inácio Lula da SilvaPresidente da República"Quando você é convidado, não pergunta quem são os outros convidados. Você vai.""Nós achamos que o Brasil, os Estados Unidos e a União Europeia têm dívidas com o continente africano"Celso AmorimMinistro das Relações Exteriores "A presença do presidente Lula sempre capitaliza para todo mundo. Os líderes dos países mais ricos querem aparecer na fotocom o presidente Lula. É um presidente popular"

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