Lula monta estratégia de ataque para prorrogar CPMF

Governo decide implodir o DEM e continuar negociando com Aécio e Serra

Christiane Samarco,

22 de agosto de 2007 | 21h41

Implodir o DEM (ex-PFL) e continuar a negociar com os dois governadores do PSDB, Aécio Neves (MG) e José Serra (PSDB). Essa é a estratégia definida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no trabalho de preparar o terreno do Senado para vencer a oposição e aprovar a proposta de emenda constitucional (PEC) que prorroga a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Para derrubar a resistência do PSDB, o governo joga com o interesse dos dois maiores líderes do partido, os seus governadores.Sobre a cabeça de Serra, pesa um pedido de empréstimo externo de R$ 4 bilhões junto ao Banco Mundial (Bird), que ainda depende de autorização do Tesouro. Também está pendente de aval do governo a concessão de empréstimo semelhante ao governo de Minas, no valor de R$ 2 bilhões. Isto, sem falar da pressão em torno de projetos essenciais aos Estados dos líderes tucanos, como a implantação de uma siderúrgica no Ceará do presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati. Diferentemente do tucanato, que admite negociar a redução da alíquota da CPMF dos atuais 0,38% para 0,20%, o partido Democratas insiste na derrubada da PEC. Para pôr abaixo o discurso do "xô CPMF", entoado pelo DEM, o presidente Lula entrou pessoalmente na articulação que visa a esvaziar a bancada de 13senadores. Disposto a afastar qualquer risco de derrota, Lula quer fortalecer a base aliada no Senado, onde a maioria governista é estreita, transferindo cinco senadores do DEM para partidos aliados. A contabilidade mais pessimista do Planalto aponta a cooptação, já em curso, de quatro democratas, podendo chegar a seis numa conta mais otimista. O governo trabalha com prazo até 30 de setembro para concretizar o troca-troca partidário antes de a PEC da CPMF, que está sendo apreciada na Câmara, chegar ao Senado. Não foi à toa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convidou o governador de Minas para tomar um "cafezinho" com ele no Planalto ontem. Antes de comparecer no início da tarde à audiência com o ministro da Defesa, Nelson Jobim, para tratar do Aeroporto Tancredo Neves, em Confins, Aécio conversou com o presidente sobre CPMF.Na conversa, Lula expôs claramente sua preocupação em aprovar a PEC. "O presidente insistiu que considera a CPMF fundamental ao equilíbrio das contas públicas e que quer manter um diálogo com a oposição em busca de uma convergência no Senado," contou Aécio depois do encontro.O governador chamou a atenção para a postura "mais equilibrada" dos tucanos, que defendem a redução da alíquota e a partilha dos recursos com Estados e Municípios, em vez de pregar a extinção do tributo. Disse que aposta na negociação e que acredita que, ao final, governo e oposição possam chegar "a uma posição de equilíbrio".Aécio deixou o Planalto com uma advertência ao governo: "A aprovação da PEC não é um ato de vontade unilateral. A CPMF terá de passar por uma negociação no Senado". Na avaliação de um dirigente nacional do PSDB, no entanto, a manifestação do governador não passa da retórica. O parlamentar afirma que, exatamente por conta dos empréstimos pendentes, nem ele nem Serra têm qualquer interesse de criar um impasse com o governo. Ao contrário. Mais do que para o governador de Minas, que já consolidou uma imagem de administrador eficiente e se reelegeu com alto índice de aprovação, é para o recém eleito José Serra que o dinheiro do Bird é fundamental.É com estes recursos que o governador paulista conta para fazer obras de grande impacto, como a ampliação do metrô e a compra de trens mais rápidos, que possam ser apresentadas ao eleitorado nacional na disputa pela sucessão do presidente Lula. Pressão dos governadoresA despeito da pressão dos governadores, líderes do PSDB na Câmara e no Senado avaliam que, pela primeira vez, a tradição de o PSDB atuar no Congresso em sintonia plena com os governadores do partido está por um fio. "Desta vez, nós estamos dispostos a peitar o governo, a despeito dos riscos que existirem, e nós sabemos que existem", diz um tucano de expressão, identificado como integrante do grupo serrista. "Os governadores já foram prevenidos de que, se o governo não negociar em nada, votaremos contra, e tudo bem", completou o parlamentar. Foi este o sinal claro emitido pela maioria da bancada do PSDB no Senado, que se reuniu na noite de terça-feira a assessoria técnica e o presidente da Fiesp, Paulo Scaf, para discutir a questão. "Prorrogar a CPMF do jeito que está eu não aceito. Ou se reduz a alíquota e partilha os recursos com os Estados e Municípios, ou se acaba com a CPMF", advertiu o presidente nacional do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), antes mesmo de a reunião começar. "Minha posição é definitiva, muito clara e muito consciente, e eu vou usar minha liderança na presidência do PSDB para convencer a bancada a fechar questão em torno disso", completou.Estratégia A estratégia no Senado será a de esticar a corda, obstruindo a votação ao máximo, para forçar a base governista a negociar. "O tempo é nosso maior aliado", diz o senador Sérgio Guerra (PSDB-PE). "Uma parcela grande da nossa bancada de senadores está convencida de que deixar o governo seguir em frente com o excesso de arrecadação que já colheu e mais R$ 36 bilhões de CPMF é produzir uma bolsa eleição para nos derrotar em 2010", argumenta Guerra.

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