Lula lança relatório sobre ditadura e militares não comparecem

Sem a presença dos comandantes doExército, Marinha e Aeronáutica, o presidente Luiz Inácio Lulada Silva lançou nesta quarta-feira o livro-relatório "Direito àMemória e à Verdade", com o resultado oficial de pesquisassobre a repressão a adversários políticos da ditadura militarentre 1964 e 1985. Lula garantiu em discurso que o relatório, produzido aolongo de 11 anos pela Comissão Especial de Mortos eDesaparecidos, não tem intenção "revanchista" em relação aosmilitares. Primeiro documento oficial sobre o caso, o livronarra casos de tortura, morte e desaparecimento de presos. Parentes de desaparecidos criticam o governo por não terpromovido, nesse período, a localização dos corpos, tema queainda é considerado tabu em meios militares. Oficialmente, oscomandos das Forças Armadas negam a existência de arquivos comessas informações. "Uma das feridas que permanecem abertas é a localização(dos corpos). A gente deveria determinar um prazo e pensar queestratégia utilizar para que a gente pudesse saber onde está,sem expectativa de que a gente vá fazer um processo derevanchismo", disse o presidente em seu discurso. Segundo a assessoria da Secretaria Nacional de DireitosHumanos, os três comandantes militares, subordinados aoministro da Defesa, Nelson Jobim, foram convidados para acerimônia, assim como familiares de mortos e desaparecidos edirigentes de movimentos de defesa dos direitos humanos. Em rápida entrevista após a solenidade, Lula não conseguiuexplicar a ausência dos comandantes. "Não sei. Primeiro porque não conversei com os militares.Eu fui convidado pela Secretaria de Direitos Humanos. O Jobimfoi convidado. Veio quem foi convidado." Mais tarde, a assessoria do Ministério da Defesa informouque foi Jobim quem decidiu pela ausência dos três comandantes,levando em conta que o comandante do Exército, general EnzoPeri, estaria em missão da Argentina. Em 1996, quando era ministro da Justiça no governo FernandoHenrique Cardoso, Nelson Jobim iniciou o processo dereconhecimento da responsabilidade do Estado pelas mortes narepressão política. Em seu discurso nesta quarta, ele ressaltouo caráter de "conciliação" da anistia e do reconhecimento deindenização das chamadas "vítimas da ditadura". "Não haverá indivíduo que possa a isso reagir, e se houverterá resposta", disse o ministro da Defesa. Em um momento raro em seus discursos, Lula elogiou otrabalho de Jobim no governo Fernando Henrique Cardoso, citandonominalmente seu antecessor e adversário político. Também citououtro tucano, o ex-ministro José Gregori. O ministro Paulo Vanuchi, chefe da Secretaria Especial deDireitos Humanos, também negou que a publicação tenha oobjetivo de promover um acerto de contas com os militares. Umdos irmão do ministro (Alexandre Vannuchi Leme, líderestudantil e militante do grupo ALN) foi preso no campus da USPem 1973 e dado pelos militares como "morto em atropelamento". "Este não é um ato de alegria, um ato de festejar. Oconteúdo do relatório trata de uma guerra em que não houvevencedor, uma guerra em que todo o Brasil perdeu", disseVannuchi.

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