Lula lança obras em favelas do Rio e diz que Dilma é a ''''mãe do PAC''''

Nos eventos, ele praticamente fez campanha para ministra, que não quis responder se seria candidata em 2010

Wilson Tosta, Alexandre Rodrigues, Márcia Vieira, Clarissa Thomé e Tânia Monteiro, O Estadao de S.Paulo

08 de março de 2008 | 00h00

Diante de milhares de moradores das favelas do Complexo do Alemão, de Manguinhos e da Rocinha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva consagrou a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff - possível candidata à Presidência em 2010 -, como "mãe" e "chefe" do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mesmo negando caráter eleitoral às obras de urbanização lançadas oficialmente ontem nas comunidades, Lula destacou, nos três eventos, o papel que Dilma terá na sua condução, fiscalização e sucesso, chamando-a para a frente do palco e praticamente apresentando-a ao povo. Embora sorridente, a ministra, uma técnica que nunca exerceu mandato eletivo, pareceu um pouco constrangida. Mais tarde, em entrevista, abraçou moradores e tirou fotos, mas se esquivou de responder se se considerava candidata. "Me considero coordenadora do PAC", desconversou.Nos três discursos que fez ao longo do dia, Lula fez questão de colocar a ministra na vitrine. "A Dilma é uma espécie de mãe do PAC, é ela que cuida, é ela que acompanha, é ela que vai cobrar junto com o (ministro das Cidades) Márcio Fortes se as obras estão andando ou não estão andando", disse o presidente em comício para cerca de 5 mil pessoas na localidade da Pedra do Sapo, no Complexo do Alemão.TESTEA exposição de Dilma faz parte da estratégia de Lula para definir quem será o candidato à sua sucessão em 2010. O presidente só pretende ungir um herdeiro a partir do ano que vem. Antes, quer pôr à prova pelo menos seis nomes. Além de Dilma, deverão ser testados os ministros petistas Tarso Genro (Justiça), Marta Suplicy (Turismo) e Patrus Ananias (Desenvolvimento Social), além do peemedebista Nelson Jobim (Justiça) e do deputado Ciro Gomes (PSB). O teste inclui viagens do postulante pelo País ao lado de Lula e o exame de como cada um se comporta na defesa do governo.Foi o que fez Dilma ontem. Em entrevista, ela disse que o presidente a chamou de "mãe do PAC" para facilitar o reconhecimento pela população de quem coordena o PAC. "Até porque, quando fazemos prestação de contas, para o bem ou para o mal, existe uma pessoa para quem deve apresentar, reclamar", afirmou. A ministra também considerou a declaração do presidente uma forma de rebater afirmações de que o PAC seria "um programa eleitoreiro", ou "uma obra de pirotecnia". De acordo com a ministra, o PAC "não é uma obra de marketing" e "quem diz isso é mal-intencionado".Na Rocinha, Dilma pediu pressa do Congresso na aprovação do Orçamento da União e ameaçou com a edição de medidas provisórias para suprir sua falta. "Se ele não for aprovado, acabaremos em MPs, poderemos mandar medidas provisórias", avisou a ministra, repetindo o gesto de seu colega do Planejamento, Paulo Bernardo. Segundo ela, a semana que vem é o limite. "Não é possível que obras da importância dessa, como a Rocinha, o Complexo de Manguinhos e todas as outras que vocês não estão vendo aqui, mas nós sabemos que estão ocorrendo, sejam paralisadas porque o Orçamento não é aprovado."VIOLÊNCIAAo discursar no palanque montado no meio da Avenida Leopoldo Bulhões, em Manguinhos, via que ganhou o apelido de Faixa de Gaza por causa dos constantes tiroteios, o presidente tentou tranqüilizar os moradores, que vestiam camisetas pedindo "PAC com paz". O tema também estava em faixas espalhadas nas três comunidades que receberão as obras, onde moradores temem que as melhorias cheguem acompanhadas de ações policiais contra o tráfico de drogas que os deixem no meio do fogo cruzado. Lula garantiu que o PAC não levará guerra às favelas."É preciso uma intervenção muito pesada do governo, mas não uma intervenção com polícia, para fazer guerra além das guerras que as pessoas já têm", discursou o presidente. Na platéia, alguns gritaram "fora caveirão!", numa referência ao blindado da Polícia Militar do Rio que é objeto de pânico dos moradores em favelas. A queixa também levou muitos a vaiar o governador Sérgio Cabral (PMDB).O presidente defendeu o investimento social como forma de combater o crime e criticou a atuação da polícia. Ele lembrou que o ministro Tarso Genro assina hoje convênio com o governo do Rio para treinar policiais fluminenses com o pagamento de bolsas de estudo."Assim, quando eles vierem para cá e virem vocês na rua, não verão em primeiro lugar um bandido, mas um carioca, um brasileiro, um homem ou uma mulher que quer viver, trabalhar, estudar, educar seus filhos, ter acesso a lazer e viver dignamente", afirmou. "É preciso acabar com essa história de vender a imagem de que tudo é bandido, de que tudo não presta. Num pé de laranja, quanto tem uma podre, a gente não corta o pé. A gente arranca a podre."Na Rocinha, Lula recebeu uma visita inusitada. O líder do Movimento dos Sem-Terra no Pontal do Paranapanema José Rainha Júnior e sua mulher, Deolinda, o procuraram. O presidente convidou Rainha para uma conversa na área reservada para a comitiva.

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