Lula interrompe férias para participar de posse de Corrêa

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assiste na segunda-feira a posse oficial do novo presidente do Equador, o economista de esquerda Rafael Correa Delgado, de 43 anos. Depois de dez dias de férias no litoral do Guarujá, Lula decidiu interromper o descanso para marcar posição na festa que também terá como convidados o venezuelano Hugo Chávez, a chilena Michelle Bachelet, o boliviano Evo Morales e até o iraniano Mahmoud Ahmadinejad.Hugo Chávez saiu na frente para ganhar o posto de "padrinho" de Correa e, de quebra, ficar com o espólio esquerdista de Fidel Castro, ditador de Cuba afastado do poder por problemas de saúde. O venezuelano chegou mais cedo e para participar neste domingo, da posse "indígena" do novo presidente em Zumbahua, província de Cotopaxi, a 100 quilômetros de Quito. Foi de Chávez, aliás, a idéia de levar Ahmadinejad, numa provocação ao presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. O líder iraniano faz um giro na América do Sul a pretexto de firmar convênios na área petrolífera. Após a posse no Congresso, Correa oferecerá almoço a Lula, Chávez, Morales, Ahmadinejad e Bachelet. Será o primeiro encontro de Lula com Chávez desde o anúncio de medidas radicais de nacionalização do setor de energia da Venezuela na semana passada. Durante as férias no litoral paulista, o presidente brasileiro não fez comentários nem mandou subordinados se pronunciarem sobre o anúncio de Chávez.Em Zumbahua, Chávez foi saudado como líder socialista do continente por chefes quichuas. Diante das câmeras de emissoras de televisão, que transmitiram a festa ao vivo para todo país, ele comungou na parte religiosa da cerimônia, vestiu um poncho, soltou uma pomba e não saiu de perto de Correa. "Eu peço a Jesus Cristo, o redentor, que dê coragem a Rafael Correa e ao povo equatoriano", disse Chávez em discurso. "Venho a estas montanhas não para fazer retórica, mas para dizer que a Venezuela se põe às ordens do povo do Equador e de Rafael Correa."Depois, Chávez observou que seria o primeiro estrangeiro a firmar acordo com o novo governo equatoriano. "É um convênio de integração política, a verdadeira integração do nosso povo", disse. Chávez afirmou que vai lutar pela integração, a princípio, da Venezuela, da Colômbia, do Peru, do Equador e da Bolívia, "uma só grande pátria", que será uma "alternativa" a Área de Livre Comércio das América, a Alca, que foi trabalhada pelos Estados Unidos.EnigmaO novo presidente do Equador é um enigma no próprio país. Os jornais de Quito e Guayaquil, cidades mais importantes, levantaram a discussão se Correa será uma versão do amigo venezuelano Chávez, ou do amigo brasileiro Lula. "Não se sabe qual será sua tendência. Conservador como Morales, Fidel e Chávez ou democrata como Lula, Tabaré (Vazques, do Uruguai) e Bachelet", publicou o jornal Hoy.Correa, que estudou em universidades dos Estados Unidos e da Europa, tem características que lembram alguns políticos brasileiros. A trajetória dele se assemelha a de Fernando Henrique Cardoso, pela origem de esquerda e por ganhar status de presidenciável após comandar como ministro a área econômica. Ele recebe o poder de Alfredo Palácio, a quem serviu como ministro da Economia. O estilo de Correa nas entrevistas, no entanto, lembra o de Ciro Gomes. O novo presidente do Equador gosta de citar cifras e números, nem sempre exatos, para destratar adversários e mostrar superioridade intelectual.Às vésperas da posse oficial, Correa não deixa claro se será "afilhado" de Chávez ou de Lula. Neste domingo, diante de Chávez e de grupos indígenas, em Zumbahua, ele fez questão de agradecer ao "companheiro metalúrgico Lula" pelo apoio, sem deixar de criticar as "víboras" da direita equatoriana e defender mudanças radicais na estrutura política e social do Equador, um país com problemas comuns do continente, como a corrupção, a má distribuição de renda e a concentração de poder. "Nada de servilismos, vamos fazer uma constituição democrática e socialista", disse. "Diziam que iríamos conduzir o país a uma guerra civil, não, vamos fazer as mudanças por meio de uma constituinte democrática."Ele já anunciou que vai fazer uma consulta popular para convocar uma assembléia constituinte. Correa disse que considera tanto a atual carta quanto o Congresso "ilegítimos". Ontem, ele fez ataques duros ao ex-presidente Lucio Gutiérrez, chamando-o de "traidor" do povo. Gutiérrez, deposto em meio a um caos político, tinha manifestado na semana passada apoio à convocação de uma nova assembléia.Durante a campanha eleitoral contra o multimilionário Álvaro Noboa, Correa prometeu nacionalizar o petróleo equatoriano. A Alianza País, comandada por ele, ganhou apoio de mais de 200 grupos políticos. Após vencer o segundo turno com 3,5 milhões de votos, cerca de 56% dos votos válidos, ele esteve em Brasília. Em encontro com Lula, amenizou o discurso, propondo parceria com a Petrobrás, que tem interesses na extração de petróleo no país.Este texto foi alterado às 16h40.

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