Lula ficará fora da briga entre aliados

Presidente avisa, também, que não compensará derrotados com cargos

Christiane Samarco, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

26 de janeiro de 2009 | 00h00

O governo decidiu lavar as mãos na briga entre PT e PMDB pelo controle das presidências do Senado e da Câmara. Não vai se envolver na disputa entre José Sarney (PMDB-AP) e Tião Viana (PT-AC), ambos candidatos a comandar o Senado. Também não vai interferir em favor da candidatura do presidente do PMDB, Michel Temer (SP), na Câmara.O movimento do governo surpreendeu os peemedebistas e torna indefinida até a situação de Temer, que, com o apoio do Palácio do Planalto, tinha posição confortável para presidir a Câmara. Essa mudança não representa um movimento aberto contra o PMDB. Mas, no governo, vários auxiliares diretos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva consideram um erro estratégico permitir que o partido controle tanto Câmara como Senado, ainda mais sem a certeza de que o PMDB estará alinhado ao PT na campanha presidencial de 2010.O desembarque do governo desse processo sucessório chegou a tal ponto nos últimos dias que, irritado com a perspectiva de o PMDB assumir a direção das duas Casas, um petista do alto escalão do governo disse ao Estado que, se fosse deputado, votaria em Aldo Rebelo (PC do B-SP) na Câmara.O mesmo governo que vinha trabalhando abertamente para eleger Temer agora decidiu cruzar os braços. Diz que acredita na vitória do peemedebista, mas considera que o acordo entre o PMDB e o PT do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (SP), pelo qual Temer deve sucedê-lo, é questão dos partidos, não do Planalto. Lula tem lembrado a interlocutores que nem sequer foi consultado sobre o acordo, até porque, à época, apoiava Aldo, não Chinaglia. O presidente também já tratou de mandar um recado claro ao PMDB e ao PT: disputem e assumam o resultado, porque não haverá compensação. Um colaborador do governo acrescenta que Lula foi claro na conversa com Sarney, na semana passada, quando teria dito: "Vocês não vão jogar isto no meu colo." Segundo o colaborador presidencial, a mesma advertência foi feita mais tarde a Tião Viana, com o aviso de que "não vai ter cargo para compensar nenhum derrotado".ALTO CUSTOUm dos conselheiros do presidente afirma que governo vai enfrentar o resultado desta eleição, seja ele qual for, sem cair na barganha, porque não quer ficar refém. Ele informa que o entendimento do Planalto é de que o governo não deve seguir mais por esse caminho, como aconteceu nas eleições anteriores para compensar os insatisfeitos com o desfecho. A análise é de que esse tipo de procedimento custou caro à imagem do governo e não produziu nenhuma garantia de paz na base de apoio dentro do Congresso.A avaliação da cúpula do PT e do governo é de que Sarney mudou de ideia e resolveu disputar a presidência do Congresso por causa da velha briga entre o PMDB da Câmara e do Senado, atualizada pelos resultados das eleições municipais. Análise semelhante é feita por um peemedebista, que avalia que Sarney e o futuro líder da bancada, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), temem perder espaço no comando partidário e a primazia na interlocução com o governo para o ministro da Integração Nacional, deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA).O raciocínio é de que Geddel está muito bem e teve sua força política turbinada pela mais expressiva vitória do partido nas eleições municipais, quando derrotou o PT baiano e reelegeu o prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro (PMDB).Apesar da irredutibilidade, o Planalto e o PT sabem que uma derrota de Temer, que tem atrás de si uma bancada de 94 deputados, certamente comprometeria a governabilidade. Por isso, a líder petista no Senado, Ideli Salvatti (SC), acha que a vitória de Viana é a única alternativa para livrar o governo de pagar uma conta muito alta.

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