Reprodução/Twitter Lula
Reprodução/Twitter Lula

Lula, FHC e a perda da memória

Petista sempre desprezou o tucano e pretendeu sair do encontro com um crachá de ‘democrata-equilibrado-moderado-de centro’ grudado na lapela. Só engana quem fizer questão de ser enganado

J.R.Guzzo, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2021 | 15h00

O jornal O Estado de S. Paulo, num editorial há pouco publicado, ofereceu aos leitores um medicamento que está em profunda escassez no mundo político brasileiro de hoje: o tônico contra a perda de memória. É remédio essencial, pois os barões da nossa vida pública não têm a menor vergonha de fazer hoje o contrário do que faziam ontem. Tratam o eleitor como o bobo de sempre, que não lembra de nada e imagina que eles sejam mesmo aquilo que estão fingindo para a plateia que são. 

O editorial não deixa que um deles, a estrela-guia da esquerda nacional, passe a perna no público, mais uma vez, sem que ninguém diga nada. Trata-se do encontro de Lula, candidato a presidente na eleição de 2022, com o ex-presidente Fernando Henrique, que lhe prometeu apoio se houver um segundo turno entre ele e Jair Bolsonaro. É uma contrafação em estado puro. FHC mostrou-se amigo de Lula, mas é rigorosamente falso que Lula seja amigo de FHC.

“Se um candidato tucano aparecesse nas pesquisas como capaz de derrotar o presidente Jair Bolsonaro na eleição do ano que vem, o PT de Lula da Silva certamente se recusaria a apoiá-lo”, diz o editorial. Não é uma previsão: é um fato. Alguém duvida, honestamente, que as coisas seriam assim? Não é só isso. “O demiurgo de Garanhuns”, diz o texto, “nunca se deixaria fotografar ao lado de FHC ou desse candidato, nem declararia voto no tucano no segundo turno, ainda mais tanto tempo antes da eleição”.

É isso, precisamente, que indica a realidade. O PT, para começo de conversa, jamais aceitou o resultado das eleições presidenciais de 1994, como nunca aceita suas derrotas nas urnas. Fernando Henrique mal tinha tomado posse e já começou a campanha: “Fora FHC”. Lula pode negar isso? Pode negar as constantes tentativas de impeachment, sem qualquer motivo sério, contra o presidente? Pode negar que insultou os eleitores do adversário, em mais uma prova de que, em sua democracia, só acha que são legítimos os votos dados a ele? Pode negar que logo no primeiro dia do seu mandato, após ter recebido com toda a educação a faixa presidencial do antecessor, saiu dizendo que tinha recebido uma “herança maldita” do seu governo? Pode negar que repetiu essa mentira sabe-se lá quantas vezes em seu mandato?

Lula, nos dezenove anos que se passaram desde que assumiu a presidência, jamais retirou uma só das ofensas que fez a FHC, ou voltou atrás em qualquer das duas posições. Ao contrário: foi incapaz de dizer, nesse tempo todo, uma única coisa positiva em relação ao inimigo. Agora está aí outra vez, tentando enganar o público com a fábula de que, por causa do encontro, ganhou um atestado de boa conduta de Fernando Henrique. É mentira. Lula continua desprezando FHC, ou qualquer aliado, como sempre desprezou. Os fatos dizem isso.

Lula só entende “democracia”, palavra que vive na sua boa, como um regime em que ele e seu partido ganham sempre as eleições importantes. Só aceita, na prática, o regime de partido único. Diz o contrário porque não tem a força material para impor o que quer – e até tolera outros partidos, desde que no papel de “aliados” subordinados e obedientes. Seu modelo de liberdade de expressão é uma imprensa amordaçada pelo “controle social da mídia”, e comprada com dinheiro da máquina pública. Acha que o problema da Venezuela, por exemplo, é que lá existe “democracia demais”.

É este o Lula que pretendeu sair do encontro com FHC com um crachá de “democrata-equilibrado-moderado-de centro” grudado na lapela. Só engana quem fizer questão de ser enganado.

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