Lula esquece passado e vê ameaça à democracia em crítica ao governo

Irritação do presidente com protestos contrasta com tom duríssimo que adotou em 24 anos na oposição

Carlos Marchi, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2005 | 00h00

A democracia está em xeque, acusou na semana passada o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao irritar-se com apupos de pequenos grupos em Cuiabá e Campo Grande. ''''Com a democracia não se brinca'''', ameaçou Lula, ''''porque o que vem depois dela é muito pior''''. A reação não combina com o tom duríssimo com que, durante 24 anos, ele vergastou governos e personagens a quem fazia uma oposição implacável.Sob o comando de Lula, o PT apresentou incontáveis pedidos de impeachment contra o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Não há registro de que um chefe da oposição o tenha xingado, mas, na oposição, Lula chamou FHC de ''''ladrão'''' e ''''corrupto''''; José Sarney, de ''''grileiro''''; e Itamar Franco, de ''''imbecil''''. Numa das acusações a FHC, bradou: ''''Se eles (FHC e seus aliados) tivessem uma escola para ensinar a governar, eu não deixaria meus filhos entrar (sic), porque o máximo que meu filho ia aprender era roubar, e não governar.''''Em dezembro de 1998, dois meses após a eleição que FHC venceu no primeiro turno, uma corrente trotskista do PT lançou o bordão ''''Fora FHC''''. O partido não a aprovou e, em abril, três meses após a posse, lançou o mote ''''Basta de FHC'''' para substituí-lo, mas o ''''Fora FHC'''' já ganhara dimensão nacional. Em maio de 1999, o hoje ministro da Justiça, Tarso Genro, escreveu um artigo defendendo o ''''Fora FHC''''.PEDRAS E PICARETA''''O PT de Lula sempre foi muito mais agressivo que a oposição de agora'''', constata a cientista política Maria Celina d''''Araújo, do CPDOC/FGV. No início de 1986, o PT organizou manifestações de protesto no campo. O então presidente José Sarney afirmou: ''''Não podendo alcançar o poder pelo voto, o PT recorre à luta armada.'''' Lula respondeu muitos tons acima: ''''Sarney não vai fazer reforma agrária coisa nenhuma porque ele é grileiro no Maranhão.'''' Em maio de 1985 militantes da CUT atacaram com pedras e uma picareta, no Rio, um ônibus que levava a comitiva de Sarney. O presidente ficou coberto de cacos de vidro.Só nos primeiros seis meses de 1998, um ano eleitoral, o PT fez cinco representações pedindo o impeachment de FHC, ao contrário da atual oposição, que evitou chegar ao impeachment no escândalo do mensalão. No Congresso, o PT passou os oito anos de FHC cobrando CPIs para tudo. Em setembro de 2001, Lula denunciou que o acordo do governo FHC com o FMI incluía cláusulas secretas para privatizar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Não houve registro de que o governo FHC pretendesse privatizar o BB e a CEF, mas o governo Lula já não vê pecados em privatizar: há alguns dias anunciou a privatização de algumas das principais rodovias brasileiras.A ELEIÇÃO ACABOU''''Diga a eles que a eleição acabou em outubro'''', afirmou Lula, terça-feira passada, em Campo Grande (MS), mandando um recado às pessoas que o vaiaram. Em 8 de julho de 1999, o PT decidiu promover passeatas para pressionar a Câmara a iniciar um processo de impeachment contra FHC, explicou Lula à época, sem se dar conta de que a eleição acabara nove meses antes e ele tinha sido derrotado.Na comemoração do 1º de Maio de 1997, em São Bernardo, Lula acusou FHC de estar ''''metido na maracutaia dos precatórios, do Sivam, do Proer e da compra de deputados para a reeleição''''. Em seguida, a CUT-SP comandou massiva vaia a FHC, à qual Lula assistiu com um sorriso maroto, sem achar - como acha hoje - que vaias ao presidente podem ameaçar a democracia.

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