Lula espera fim de inquérito para decidir futuro de Lacerda

Presidente aguarda laudo que definirá quem grampeou presidente do STF

Vannildo Mendes e João Domingos, O Estadao de S.Paulo

11 de outubro de 2008 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva elogiou ontem o delegado Paulo Lacerda, mas condicionou o seu retorno à direção da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) à conclusão do inquérito que apura a autoria do grampo ilegal de conversa telefônica entre o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO). "O Paulo Lacerda é um extraordinário profissional brasileiro, feliz do país que tem um profissional do gabarito dele", disse Lula, em entrevista a portais de notícias na internet, publicada pelo www.limao.com.br, o portal Limão, do Grupo Estado.Segundo o presidente, Lacerda foi afastado, em 1º de setembro passado, "até para garantir sua honradez", mas poderá reassumir as funções, tão logo ele receba o laudo da autoria do grampo. A interceptação teria sido feita por agentes da Abin e da PF no curso da Operação Satiagraha, que prendeu o banqueiro Daniel Dantas e mais 16 pessoas em julho passado. Dantas foi detido duas vezes e solto, em ambas ocasiões, por habeas corpus de Mendes. A Abin cedeu 52 agentes ao delegado e é suspeita de estar por trás da bisbilhotagem.O problema é que o inquérito não tem data para ser encerrado e a demora na definição está trazendo inquietação no delegado e paralisia administrativa na agência. Para os delegados Rômulo Berredo e William Morad, encarregados do inquérito, a investigação está praticamente na estaca zero. Para tanto, eles recorrem à técnica policial segundo a qual "sem corpo não há crime". Ou seja, o crime de grampo ilegal, nesse caso, só poderia ser caracterizado com o aparecimento do áudio do diálogo entre o ministro e o senador.Lacerda tem dito a interlocutores que está tranqüilo e espera ser reconduzido o mais rápido possível ao cargo. Mas tem demonstrado preocupação com o desgaste que a demora na conclusão do inquérito causa à sua imagem e às ações da agência, prejudicadas pela falta de comando, entregue a interinos desde o início de setembro, no meio de uma ampla reforma física e administrativa. Se depender de Berredo e Morad, a angústia de Lacerda não tem data para acabar.PARADOO inquérito está parado na 10ª Vara da Justiça Federal desde 2 de outubro, para onde foi remetido com pedido de mais prazo para conclusão dos trabalhos. Na melhor das hipóteses, o inquérito retorna à PF no final do mês e dificilmente será concluído este ano. Para os assessores de Lacerda, caberia ao presidente, se tem o apreço que diz por Lacerda, resolver o dilema e trazer o delegado logo de volta ao comando da agência.A investigação começou em 2 de setembro, um dia depois do afastamento de Lacerda e até agora a PF não conseguiu sequer esclarecer o ponto principal: as circunstâncias e se houve ou não o diálogo telefônico, publicado na revista Veja, entre Mendes e Demóstenes.Os extratos telefônicos dos gabinetes do senador e do presidente do Supremo mostram que a ligação ocorreu, mas não que foi gravada. Muito menos se foi fruto de interceptação ilegal por arapongas da Abin ou agentes da PF, a serviço do inquérito ou clandestinamente.Enquanto isso não for esclarecido, PF não descarta nem prioriza qualquer hipótese. Os delegados esperam poder avançar nessa segunda etapa, quando o inquérito retornar da Justiça, provavelmente até o final de outubro. O delegado Protógenes Queiroz, que conduziu a Satiagraha, nega que tenha autorizado o grampo em qualquer momento da investigação. O juiz e o procurador que atuaram no caso também negaram o grampo.

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