Lula enquadra FAB e diz que ''é o presidente'' quem decide sobre caças

Jobim também manda recado sobre compra de aviões e afirma: 'Aeronáutica não tem autonomia para decidir'

Leonencio Nossa, Ângela Lacerda e Tânia Monteiro, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2009 | 00h00

Pouco habituado a entrar em polêmicas com os militares, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu ontem da rotina e enquadrou a Aeronáutica. Ele avisou que a compra de caças para a Força Aérea Brasileira (FAB) é uma decisão exclusiva sua. Em entrevista após inaugurar um estaleiro no Porto de Suape, em Pernambuco, Lula disse ter achado engraçadas as queixas na imprensa de que o governo não levou em conta análises técnicas ao manifestar preferência pelos aviões Rafale, da empresa francesa Dassault. "A FAB tem o conhecimento tecnológico para fazer avaliação e vai fazer, eu preciso que ela faça. Agora, a decisão é política e estratégica", declarou. "E essa é do presidente da República e de ninguém mais."

A declaração foi recebida com reserva entre os militares, que preferiram não entrar em rota de colisão com o presidente. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o brigadeiro Dirceu Noro, presidente da comissão técnica que faz a avaliação dos caças que competem para equipar a FAB, disse que a Aeronáutica indicaria um "vitorioso". Em sintonia com Lula e dentro da estratégia de enquadramento dos militares, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, declarou: "A Aeronáutica não tem autonomia para decidir."

A afirmação de Jobim, repassada aos brigadeiros, é de que, mesmo que no ranking das aeronaves selecionadas o caça francês Rafale não esteja em primeiro lugar, isso não impedirá a sua escolha. "A decisão sobre o que será comprado pelo país é política, dentro dos interesses estratégicos. É do presidente."

Até o final do mês, a FAB deve apresentar o relatório final e entregar um ranking com o primeiro, segundo e terceiro lugar entre Rafale, F-18, da Boeing, e o Gripen, fabricado pela sueca Saab.

Ontem, o Ministério da Defesa estabeleceu o dia 21 como limite para as empresas apresentarem novas propostas.

FABRICAÇÃO

Lula cobrou da companhia francesa que os 36 caças sejam fabricados no Brasil, como teria garantido o presidente da França, Nicolas Sarkozy, em visita a Brasília no dia 7. "O Sarkozy ofereceu possibilidades. Vamos ver se a Dassault está disposta a flexibilizar a proposta."

O presidente relatou que as fabricantes Boeing, dos Estados Unidos, e Saab, da Suécia, que tentam vender caças ao Brasil, não apresentaram propostas concretas de repasse de tecnologia. "Não existe proposta até agora, fora a do Sarkozy, dita a mim pessoalmente, de flexibilizar", disse. Garantiu, porém, que a negociação não está fechada e o governo estuda propostas. "Uma coisa está clara: queremos transferir tecnologia e construir os aviões no Brasil."

Executivos da Dassault informaram recentemente que os caças seriam fabricados na França. Ontem, Lula repetiu que o presidente francês deu garantias de montar os aparelhos no Brasil. "Sarkozy foi o presidente que até agora disse textualmente para mim que quer não apenas transferir tecnologia, mas fazer o avião aqui e que o Brasil tem disponibilidade de vender para a América Latina."

Lula avisou que não tem pressa. "Não tenho obrigação de decidir isso amanhã, depois da manhã ou no ano que vem. Eu decido quando quiser. É isso."

"Quem quiser dar palpites, que dê. Mas vai ter um dia que a criança vai ter de nascer", salientou. Lula reclamou que, em conversa recente com jornalistas, no Palácio do Itamaraty, uma ironia de que poderia ter os caças de graça foi tratada pela imprensa como uma afirmação. "Fico triste quando a imprensa não sabe o que é brincadeira ou ironia."

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